Quando se pensava que não poderíamos descer um pouco mais, vem a realidade e comprova que, afinal, ainda há muito caminho a percorrer em sentido descendente. Assim está a Madeira e a sua situação económica e social, onde, a cada semana, se fica a compreender um pouco melhor o estado a que isto chegou e a possibilidade de não ficarmos por aqui.

Os exemplos sucedem-se a uma velocidade que preocupa e que, em alguns casos, causam um desconforto visceral, uma incompreensão que abala, que gera calafrios, que desconcerta.

Porque se trata do que de mais básico existe e deveria ser garantido, a questão da saúde pode e deve constar no topo das coisas incompreensíveis que nos têm assaltado os dias. Aos medicamentos que já faltaram para os doentes oncológicos e para os doentes transplantados, agora juntam-se os medicamentos para os doentes com HIV. E isto porque, segundo os responsáveis, há que todos os meses fazer opções, escolher, tomar decisões que nem deveriam ser equacionadas no dia a dia de um hospital, mas que o são porque se chegou a uma situação de ruptura total. Infelizmente, são escolhas que não envolvem apenas um simples processo financeiro. São decisões que afectam gente de verdade, gente que precisa desses medicamentos para viver, gente que confessa o calafrio de vir para casa de mãos vazias e coração em sobressalto.

Enquanto isso, quem nos governa dá o dito pelo não dito e anuncia as taxas moderadoras que antes havia negado com todas as letras e mais algumas figuras de estilo tão ao gosto regional. Mas, é claro, que mais uma vez ninguém vê problema nisso. O problema está sempre além-mar, o problema, quando muito, são os jornalistas que não sabem dar as notícias de forma cordata e ordeira, sem levantar ondas ou recordar declarações passadas e garantias dadas.

Aliás, é este o mesmo problema da notícia ontem divulgada pelo Expresso. A Madeira escondeu 1.878 facturas que resultaram na dívida oculta que hoje nos traz reféns de incertezas, mas os governantes voltam a estranhar o que é menos estranho em tudo isto, ou seja estranham o mensageiro, mas não a mensagem. Estranham que o Expresso tenha tido acesso aos dados, mas não os factos que deram origem à notícia.

Para este governo, a realidade já pouco importa. O que importa é a forma como se pode contornar, dourar, disfarçar, enganar. O que importa é manter o poder a todo o custo, nem que seja cumprimentando com o chapéu alheio. É isto que, por exemplo, vai acontecer com o anunciado Programa de Emergência Alimentar que, basicamente, vai usar os meios já antes disponibilizados por várias instituições de solidariedade social, como é o caso das recolhas de bens alimentares.

O povo está em calafrio, mas o que importa é que o edifício do poder não trema muito a ponto de cair. O que importa é manter a ideia de que o governo e o povo são uma e a mesma coisa e que a vida de um depende da longevidade do outro, mesmo que isso seja o maior logro de todos os tempos passados e futuros.