Há um desânimo cada vez mais patente na cara dos que me são queridos. Este tempo de incerteza está a tornar as pessoas ansiosas e descrentes em relação ao futuro. Bastou-me cinco dias de estadia na "minha" Madeira para constatar o estado de espírito dos que fazem o favor de continuarem a ser meus amigos. Os mais novos não disfarçam o embaraço quando os questiono sobre os projetos para ofuturo. Há um grande ponto de interrogação sobre as suas cabeças. É o empréstimo da casa, a escola dos filhos ea incerteza da manutenção do lugar no trabalho; essa grande dor de cabeça que perpassa milhares neste país. Os mais velhos começam a inquietar-se seriamente com os cortes salariais impostos pelo governo, com a degradação do serviço de saúde público, com o aumento dos combustíveis e da fatura do supermercado. Assumem-se, definitivamente, incapazes de manter o modelo de consumo de anos a fio. Estamos todos mais pobres e infelizes. Os meus amigos e familiares até estremecem quando se pronuncia, por estes dias, a quase proibida palavra: férias. Para onde vão, se os subsídios de férias e Natal lhes vão ser subtraídos para colmatar buracos financeiros e bancos falidos por meia dúzia de "artistas" que por aí andam, de costa direita, com o maior desplante do mundo? Numa terra pequena como na Madeira a infelicidade expõe-se de forma mais evidente e com maior clarividência. Quase crua. A descrença é fatal para quem estava habituado a serviços públicos gratuitos, a impostos mais baixos e a empregos certinhos numa administração regional falida, gerida segundo critérios muito discutíveis ao longo de três décadas, em que se sabia (e sabe) quase ao pormenor quem era filho de quem, que hábitos políticos propalava e que jornal regional assinava. É evidente que já ninguém consegue disfarçar o mal-estar existente em toda a Região perante a falência desse poder moribundo, desacreditado e lamentavelmente teimoso, arrogante e mesquinho. As histórias da nova e da velha ?Madeira já foram chão que deu uvas, por mais igrejas que se corram domingo cedo. O importante neste quadro negro é que, aqui e ali, o povo começa a perder o medo de falar abertamente sobre quem e o que está mal. Três décadas depois e quase quatro após o derrube do Estado Novo, começa a existir vontade deliberada de pôr fim a um ciclo avarento e profundamente cerceador das liberdades básicas e democráticas. Falta tanta decência no meio dessa política insular. Dignidade que só os grandes são naturalmente capazes. Um amigo que já ocupou cargos de topo na governação do país diz-me várias vezes: "quando o povo começa a sentir falta de dinheiro no bolso, impacienta-se e revolta-se". Quando a casa está em chamas é o salve-se quem puder. O povo, esse ingrato e abstrato ser, não vai agradecer as valias da "Madeira nova" quando concluir que, afinal, a continha a pagar é bem mais elevada do que algum dia sonhou. Os meus amigos e familiares insulares, barómetros certeiros, dizem-me o mesmo e questionam: que fazer quando tudo arde? Que ninguém fique de braços cruzados. As maçãs podres têm de ser removidas do "cesto". Rapidamente. *Artigo escrito de acordo com a nova grafia

Roberto Ferreira