Por que razão um Governo que sempre escondeu a pobreza, agora a admite? E um Governo que sempre demitiu quem dizia que havia pobres, agora aceita a pobreza? E um Governo que sempre escondeu a miséria, agora reconhece que há famílias com fome? Como passámos de um exemplo de riqueza nas regiões europeias, para uma terra onde é preciso o Governo voltar a dar de comer? Por uma razão simples: porque se aproximam eleições e o poder vê a carpete vermelha fugir-lhe debaixo dos sapatos de verniz. Sei que esta imagem pode ser cruel, porque no meio de gente sem escrúpulos há pessoas honestas, há valores, há dirigentes, políticos e governantes realmente preocupados. Mas isso não apaga tudo o resto. E tudo o resto, neste caso, é o que está para trás e tudo o que há de vir. O que está para trás é a onda desenvolvimentista completamente irreal, sem rumo que não o da protecção de uns quantos que ganharam milhões e deram tostões a ganhar. O que está para trás é o desaproveitamento de uma oportunidade única de se dar um salto qualitativo e não apenas permitir que rapidamente se dê um salto do Funchal ao Porto Moniz. O que está para trás são rios de dinheiro que poderiam ter sido melhor aproveitados. Já o que está por vir, é simples e está a chegar: dívidas, impostos, desemprego, crise, pobreza, fome. É como se estivéssemos a contornar a rotunda e a sair por onde entrámos em vez de aproveitar a saída da frente. O mais grave é que esta viagem tem uma leitura política que merece ser pensada com muito cuidado por uma razão simples: tal como a fartura que durante anos alimentou sempre os mesmos, também a pobreza vai sustentar os mesmos de sempre. Parece-mo óbvio, mas oxalá esteja enganado. É que vivemos numa terra de gente de bem, de pessoas agradecidas, que reconhecem quem ajuda, quem dá e que rapidamente esquecem quem lhes tirou, quem os trouxe até este estado de vida encalhada. E aí é que está o cerne da questão: quem vai dar de comer? Quem vai dar subsídios? Quem vai abrir lojas sociais? Quem vai entregar roupa lavada aos velhinhos? Quem vai dar senhas para compras no supermercado? Quem vai levar comer a casa? Claro, o Poder. E de quem é o Poder? Do Governo, das Câmaras, das Juntas, das Casas do Povo, das Confrarias, das Associações, dos Clubes... E de quem é o Governo, as Câmaras, as Juntas, as Casas do Povo, as Confrarias, as Associações, os Clubes? Directa ou indirectamente, e na sua esmagadora maioria, do PSD, honra lhe seja feita pela capacidade de mobilização que tem tanto de bom como de aprisionamento de um povo. Com raríssimas excepções, alguém conhece instituições como as atrás referidas que batam o pé contra quem manda, que discordem publicamente, que assumam propostas alternativas... Pois. Logo, parece-me legítimo este raciocínio: o PSD que ajudou a desenvolver parte da Madeira, enquanto afundava a grande maioria da Região num mar de dívidas que agora começa a chegar, é o mesmo PSD que ainda vai sair beneficiado com a pobreza alheia. Porque é a máquina do partido, articulada com a máquina governamental, que vai ajudar quem precisa. Com o dinheiro de todos é certo, mas só uns vão sair como os bonzinhos que ajudaram, que deram cabazes de comida, que abriram cantinas sociais. Só assim se compreende esta estranha movimentação do Governo e do PSD numa cruzada completamente contra as setas que sempre ergueram e seguiram. É o apelo ao regresso à terra, é o reconhecimento e o apoio implícito à emigração, é agora o chegar-se à frente no reconhecimento da pobreza. Na prática, passámos rapidamente de um Governo que negava a pobreza, para um Governo que quase a reivindica, que a chama a si, que indirectamente faz disso bandeira com o mastro fincado nos ‘cubanos de Lisboa’. Maquiavélico?! Reconheço que sim. Quem controla a máquina que nos tenta controlar a todos deve estar a dizer: “E?!” “E” que é preciso alguém lembrar que a ajuda que o Governo se apressa a dizer que vai dar, não é um favor, é uma obrigação! É a primeira obrigação de qualquer Governo. Fazer uma sociedade de cambados e oferecer muletas é do mais vil que pode haver. Mas há. Repito: a ajuda social não é um favor. É uma obrigação!