A situação de permanente exposição em que se encontram os responsáveis políticos aliada à proliferação das declarações que produzem, ocasiona a necessidade de frequentes esclarecimentos não já para desdizerem aquilo que efectivamente disseram, conforme era antes usual, mas para precisarem o sentido daquilo que queriam dizer e efectivamente não disseram. Acontece com muita frequência e aconteceu ainda há relativamente pouco tempo com Cavaco Silva, quando se referiu á exiguidade das pensões de reforma que o casal presidencial aufere. Uma situação indesculpável, porquanto Cavaco dispôs de tempo e de espaço para meditar naquilo que então disse, sendo todas as evidências no sentido de que disse aquilo que quis dizer. Tendo a obrigação de não o ter dito pelo respeito que os portugueses - os que o elegeram e os que não o sufragaram - lhe deveriam merecer. Acresce que Cavaco, pese a circunstancia de, tudo o indica, ter então dito aquilo que quis dizer, não ser um comunicador. Pelo contrário, a comunicação para ele corresponde a um exercício doloroso a que sempre falta naturalidade. Bem diferente é o perfil de Passos Coelho. Se Passos tem alguma qualidade essa é a de ter o sentido da comunicação, fazendo-o com rigor, com elegância, e usando um registo de voz que, não sendo alheio ao cultivo do canto a que se entrega ou se entregou, valoriza o discurso. Muitos são os que recordarão ainda de um ministro de Cavaco, José Augusto Seabra, que sendo uma figura da Cultura tinha um registo de voz peculiar que desvalorizava enormemente o discurso e o tornava cinzento e menos agradável do ponto de vista de quem o escutava, não obstante a qualidade do conteúdo. Ao que fica dito, avulta ainda a circunstancia de Passos evidenciar um grande domínio da comunicação, dizendo em cada circunstancia aquilo que efectivamente quer dizer. Vem tudo isto apropósito de uma recente declaração do Primeiro Ministro acerca do desemprego jovem, em que Passos disse nem mais nem menos que o desemprego correspondia a uma oportunidade! Pode efectivamente com algum esforço procurar entender-se o sentido com que o disse. Acresce é que nas presentes circunstancias, em que o desemprego se mostra um flagelo para a União Europeia de um modo geral e de um modo mais particular para os países do Sul entre os quais Portugal, sendo uma doença social que afecta directa ou indirectamente a quase generalidade das famílias mas atingindo de uma forma mais agravada jovens que deixaram alguns faz já tempo escolas e universidades sem que lhes tenha sido dada ainda oportunidade de lidar com o mundo do trabalho no concreto, estando a empurrar tal como aconteceu nos anos sessenta centenas de milhar de portugueses, mais e menos qualificados, para a emigração, deveria aconselhar a que quem tem responsabilidades na governação do país lidasse com esta realidade com mais cautela, e sobretudo com mais sensibilidade. Porque mesmo quando se possa entender aquilo que Passos Coelho quis dizer e não disse, haverá sempre uma questão que avulta: a ausência de sensibilidade com que mostrou lidar com esta situação e que é própria de quem nunca se viu confrontado com esta verdadeira chaga fatal da nossa idade! Os portugueses estão conscientes da gravidade da situação com que nos confrontamos e têm a noção dos sacrifícios que terão que continuar a ser feitos para que possamos sair dela. Mas exigem de quem tem neste momento o encargo da governação, e a quem compete procurar as soluções que permitam enfrentar esta provação com uma réstia de esperança, sensibilidade, uma outra atitude, de menor distanciamento e de maior compreensão. Sendo que as palavras do primeiro ministro não traduzem esse respeito que quem está a enfrentar esta provação gostaria de sentir. Se as declarações de Passos Coelho remetem sobretudo para questões de sensibilidade e de bom senso que é suposto constituírem características de quem governa, as acusações com que se confronta Miguel Relvas remetem para outras questões. Relvas é acusado por uma jornalista e por uma editora do Jornal Público de as ter pressionado relativamente a uma questão de índole jornalística. O Ministro não admite a alegada pressão, não cabendo agora concluir se ela existiu ou não. O que as evidências deixam claro para além de toda a dúvida razoável é a existência de uma teia de cumplicidades, de uma linha directa entre jornalistas e governante. Para evitar a promiscuidade que com isso se gera, existem os assessores de Imprensa com a missão de estabelecerem os contactos e de assegurarem as necessárias ligações. Com isso se evitando a existência de "vias verdes" que, gerando aproximação e intimidade, acabam as mais das vezes por concorrer para situações menos recomendáveis.

Carlos Sequeira