“Quem desmente, por exemplo, Tudo o que Cristo ensinou. São os vendilhões do templo Que do templo ele expulsou.

E o povo nada conhece... Obedece ao seu vigário, Porque julga que obedece A Cristo — o bom doutrinário”

António Aleixo, in “Este Livro que Vos Deixo...

“Vou à terra da minha mãe”, disse ele com entusiasmo. Eu enchi-me de orgulho pelo reconhecimento, precoce, das origens que são dele, são minhas, são nossas. Porque é bom sabermos e gostarmos do que somos. Mas ainda é melhor que as emoções da pertença não nos toldem o raciocínio.

O episódio vem-me à memória na sequência de um comentário de um leitor à opinião da semana passada. “É só o Jardim que a faz corar de vergonha?”, questionava o leitor e dava um naipe de exemplos na política nacional que , na sua opinião, deveriam ir para o topo da lista, muito antes daquilo que por cá se passa. As coisas mal explicadas pelo Presidente da República, a dívida do anterior Governo. E mais.

De facto há muitas coisas que, a mim, me envergonham e incomodam. O desemprego galopante, a falta de soluções para os jovens, o abandono dos mais velhos, a dívida de um país que carregamos às costas. As ameaças às liberdades. E as relvas ou ervas daninhas que ameaçam. O desinvestimento na cultura e na educação, o incentivo aos mais novos desistirem no país. Faz-me urticária a corrupção e dá-me a volta ao estômago a ideia instalada de que o compadrio e a troca de favores sejam um modo de vida de um país.

Mas há mais, tanto mais. Arrelia-me a fome em África e temo pela fome e pobreza escondida aqui ao lado. E a insegurança na África do Sul e na Venezuela? E os atentados aos direitos humanos na Síria. E o Iraque? Alguém sabe porque é que o Estados Unidos invadiram o Iraque e porque morreu tanta gente?. Estava tentada e falar da China e da Coreia do Norte, mas temo que isto pareça decalcado do discurso de uma qualquer Miss Mundo, que concorreu a uma prova de beleza, mas o que ambicionava, na verdade, tornar o Planeta um sítio mais aprazível.

Infelizmente, há tanto para nos apoquentarmos. E é bom que o façamos, porque mostra que ainda somos humanos. Confesso, contudo, que também me aflige a ideia tantas vezes repetida de que não somos caso único no campo das atrocidades democráticas. Porque no continente, ai Jesus, que no continente ainda são piores. Até pode ser, em tantos casos. Mas isto não é um ranking dos piores. E não é empurrando para lá e assobiando para o lado que fazemos melhor. Poupem-nos, por favor, à argumentação infantil: “A tua dívida é maior que a minha” e “Não brincamos mais à Europa”

E, para os que tanto gostam de comparar o que não tem comparação, também é bom lembrar que não me recordo de nenhum governante nacional ter garantido que Portugal era um cantinho do céu e que não havia 'gente como agente’. Da minha parte, incomodam-me os vendilhões do templo, que andaram a vender ilusões e sonhos e hipotecaram a terra que era de todos.

E por isso, volto tantas vezes ao mesmo. Porque quando assim já não for, é sinal que já não importa e já não estremeço emocionada quando ele diz: "Vou à terra da minha mãe". Que é dele, minha e nossa.