Um destes sábados decidi prolongar o habitual passeio matinal na marginal de S. Vicente um pouco para além do Bar que dá pelo nome da cascata que lhe molha os terreiros, a primeira das muitas que podemos observar entre S. Vicente e Porto Moniz a “água d`alto”. Ultrapassei o obstáculo, uma corrente metálica meia ferrugenta, e depois de subir uns metros pelo que foi outrora a estrada de ligação entre essas duas localidades, parei para respirar a maresia e observar os primeiros raios de sol que começavam a surgir na ponta de S. Jorge. Quando volto para continuar a caminhar dou de frente com um monumento a olhar fixamente para mim e como que me queria dizer algo, e quando vou reiniciar a caminhada ele começa a descrever o que lhe vai na alma. Ouvi atentamente, e fiquei sem palavras para lhe responder, com voz própria de quem já tem alguns anos de sabedoria (idade) começou assim: “Olha tu por aqui!?, também me abandonaste!?, já te esqueceste de mim!?, das vezes que te abriguei do mau tempo, que pisastes os meus calos para ires trabalhar ou namorar!?, Havia dias em que o fazias 4 e 5. Pois é depois de colocarem ai esse rapazinho, que ajudei a criar e que chamam de túnel, todo cheio de luzes de noite e de dia nunca mais ninguém me ligou. Coitado talvez nem dinheiro para pagar a luz tem, mas é novo, e já todos se esqueceram de mim, do que sofri para ele nascer, da muita pancada levei do baralho que ouvi, foram noites e noites sem dormir. Não sei como ainda não me aconteceu o mesmo que ao meu irmão, o sete janelas.? Mas apesar de tudo isso e do desprezo que me tens dado, sim tu e todos os teus amigos, não me digas que a culpa de não me fazerem uma visita de vez em quando é dos outros, porque é de vocês todos, principalmente dos que eu ajudava quase todos os dias. Um dia um teu amigo, que por engano passou por aqui, deu-me a desculpa de não passar por causa de uns senhores, não sei de onde, que não deixavam. Comecei a rir, a culpa é sempre dos outros! Tens de falar com eles e lembrar-lhes que ainda estou vivo, assim como o meu irmão que embora sendo anão e corcunda, coitado não teve culpa de nascer assim, e que os meus vizinhos, muito mais velhos do que nos, continuam de boa saúde, sabes? Estes que moram aqui mesmo “a ribeira, o vale do inferno e as suas 3 filhas, as pontes”. Lembra-lhe também que por nos já passou muita gente não só de cá, o povo anónimo, mas também muita gente famosa, reis e rainhas, governantes, autores, e que fotos nossas já correram mundo, somos mais famosos do que muita gente que anda para ai em bicos de pés. Tentaram já nos internar, fazer como fazem aos seres humanos mais idosos, mas somos todos teimosos e unidos, e já decidimos que nascemos aqui e aqui vamos continuar, mesmo depois desses senhores, á espera que um dia tu e os teus amigos se lembrem de nos dar o devido valor, por tudo quanto fizemos por vocês e por esta ilha”. Ao furado da ribeira do inferno as minhas desculpas e prometo-lhe que irei lutar até ao limite para satisfazer os seus desejos, dos seus irmãos e vizinhos.

Joel Freitas - Presidente da ACIN