Estou como num desenho animado (de olhos grandes, Japonês, Butanês, Madeirês) aquelas duas ou três bolas, na dilatada menina do olho, fazem-me fácil na lágrima. Poucas cores bastam, um riscar e um piscar de frames faz o corpo chorar, um pouco como a gente, às vezes, faz a Madeira parecer seca... Qualquer coisa me molha e não será de carga hormonal. Isto não é tristeza na análise, nem emoção na acção. Diz que são efeitos dum certo medicamento. Já terei sido mordido, não pelo mosquito, mas pelo que cintila desta gente. É para o Fabião e para a Joana e para o Amoedo e para o Pedreiro e para a Ana e para a Teresa Amaral e para a enfermeira Lurdes, da AMI - que no avião já arregaçava as mangas - esta história do boi das ilhas (minha alcunha)... Ouço a voz do professor: vamos fazer desenhos! E era uma alegria: ir fazer desenhos! De alguma maneira, lembrou-me Sílvia Freitas (ofereceu-me o belo livro de José Régio: O Princípe com Orelhas de Burro) beneficiei duma falta de formação que foi importante na altura. Desenhar era mesmo uma alegria, mas não maior que a que vi quando o João deu a uns príncipes, que tinham pescado peixinhos, umas requintadas caixas... De férias Élvio? Não. Estou a fazer nada. Desenhos. Escrevo com a ajuda de São Tomé e dos Príncipes que habitam estas ilhas. Andam-nos a enfiar barretes históricos e presentes; esta gente precisa de tudo e não nos diz apenas "bom dia" com um sorriso rasgado; acrescentam sempre a palavra 'Muito' antes da saudação. Estou a romancear-me. Vi Gago Coutinho, o Ilhéu das Rolas e até toda a Linha do Equador tremerem com os flic-flac de entusiasmo que os putos deram depois de receberem as caixas de lápis de cor. Desenho acrobático, para a minha História do Mundo, porque o brilho nos olhos é o mais importante. Não há tostão no bolso para este câmbio. O Artur cria porcos e vai à apanha do polvo, tem os dois hemisférios na mão, e um gajo, para aqui, qual Atlas, com o mundo inteiro às costas. -' As água tens de pedir'. Tratam-me por Tu, com Pompa. Ofereço um cigarro. São Príncipes com orelhas de Príncipe. Nunca me tinham dito ontem: até muito amanhã.
Élvio Camacho - Actor