É uma estratégia que vai ganhando caminho: perante perguntas incómodas, a resposta de cada vez mais responsáveis - e de alguns irresponsáveis também - é que se tratam de questões internas, que não devem ser debatidas na praça pública, como eles gostam de dizer. Na prática, o que dizem é simplesmente isto: metam-se na vossa vida, vão chatear o Camões, não têm nada com isto. E aí é que está o logro. Por acaso até temos. Porque isto, como eles dizem, é o dinheiro dos contribuintes, o nosso dinheiro. Logo, isto é nosso. E se é nosso temos não só o dever como a obrigação de nos metermos, de perguntar que fazem eles com o que é de todos. Percebo que uma empresa privada não deva explicações sobre negócios legais e privados. Admito que instituições públicas tenham sob reserva alguns projectos, medidas ainda em fase embrionária, ideias que falta estudar melhor. O que não aceito é que gente que é posta no poder pelo poder se ache num pedestal e com legitimidade para não prestar contas a ninguém. Mesmo numa Região onde quase tudo é normal, este comportamento não é normal. É antes uma aberração de um regime que se furta a explicações, de pessoas que gerem dinheiro dos impostos de todos nós com a mesma propriedade com que se gere a herança da família. Entre vários casos desta estranha autoridade de gestores ou dirigentes, lembro-me de dois casos que me fazem imensa confusão. Um foi conhecido esta semana: quando este jornal procurou saber das contas da empresa pública que gere as águas e resíduos da Região obteve a seguinte resposta: “Essas são questões internas e devem ser resolvidas entre a concedente, a ARM, e os municípios aderentes. Logo, não são passíveis de discussão na comunicação social, pelo menos nesta fase”, disse o presidente da empresa. E pronto, acabou a conversa! Outro caso ainda mais estranho: o da presidente da União Desportiva de Santana, clube com subsídios públicos, com dinheiro dos contribuintes, que está em processo de insolvência. Quando questionada pelo DIÁRIO, perante a notícia da demissão do treinador, a dirigente respondeu assim: “Não tenho de dar explicações a ninguém. Se o treinador foi não despedido só a mim diz respeito. Aqui há opções. E como não é o DIÁRIO que me está a dar o dinheiro...”. E pronto, acabou a conversa. Acabou a conversa porque vivemos numa terrinha simpática, cheia de gente que tem como filosofia de vida uma estranha resignação do género “isso é lá com eles”. Não, não é! Isso é cá connosco também. Se no primeiro caso ainda se tolera a recusa em dar explicações “pelo menos nesta fase”, já no segundo é totalmente inaceitável que alguém que gere uma instituição pública tenha aquela atitude. Mais do que displicente, revelou o que de pior tem quem tem a chave de alguma coisa. Nem cabe aqui discutir a legitimidade de quem dirige tomar opções, por mais discutíveis que sejam. O que é inaceitável é a forma altaneira como se apresentam essas decisões, como se esses responsáveis - em que estes dois casos são meramente ilustrativos - estivessem a gerir a sua vida, com o seu dinheiro. Nada disso. Estão a gerir instituições públicas com o dinheiro de todos os contribuintes. Sim, devem explicações! Têm de dar explicações. Não ao DIÁRIO ou aos jornalistas, mas aos contribuintes através dos jornalistas sejam eles de que órgão for. É tempo de acabar com essa conversa de que a conversa acabou.