Entrou de rompante no debate político do país um novo conceito de dívida: a dívida oculta. Não restam dúvidas: a dívida oculta é a dívida escondida das entidades oficiais. É dinheiro gasto nas costas dos contribuintes. É financiamento ilegal da actividade pública. Mas isto não é coisa para qualquer um. Até agora só a Madeira e a Grécia têm no seu currículo tamanha façanha. Mas a Madeira já pratica este conceito desde 2003, quando o seu Governo desatou a assumir compromissos com empreiteiros pedindo que não facturassem até novas orientações. Entre 2003 e 2011 esse foi então o procedimento de rotina. Uma festa. Combinaram-se as obras, talvez os concursos, talvez os vencedores, quem sabe também os perdedores, imaginaram-se projectos, idealizaram-se empreitadas e depois.... Depois logo se veria como se pagaria tudo isto!? Mas, como os pagamentos foram demorando, como o dinheiro ia desaparecendo para aqui e para ali, nada como meter juros pelo meio. Os empreiteiros não hesitaram em apresentar os juros de mora. Assim a solução era empurrar com a barriga, apostando numa cumplicidade profunda e inabalável entre empreiteiros e Governo de Jardim. Mas como, mesmo assim, continuava sem aparecer o dinheiro, tal era a dimensão do fenómeno e a sofreguidão dos actores políticos, o melhor mesmo foi pedir à banca para dar (mais) uma ajudinha. Assim, os empreiteiros recebiam o dinheiro, com juros, os bancos recebiam também os seus juros dos instrumentos que colocaram ao dispor do governo para pagar compromissos e, além disso, cobravam outros juros ao governo que passava a dever à banca. No fim, a conta batia à porta do senhor Governo Regional, com o preço das medições feitas a olhómetro e com juros a galope, sejam de mora, sejam financeiros, em cima das contas que ninguém fiscalizou. Um tremendo antro de perdição! Mas se tudo isto é assustador e repugnante, o que dizer do facto do principal credor da divida oculta da Madeira, que levou a um extraordinário e insuportável plano de austeridade, seja o próprio líder parlamentar do partido que suporta o governo. A divida oculta, afinal, sempre foi do seu conhecimento. Parece que é a ele que devemos! Quem diria!

Carlos Pereira - Líder parlamentar do PS-M