Todos sabem que passei 26 anos da minha vida activa dedicados à intervenção sindical. Foi o tempo das lutas pela conquista de direitos, mas também foi o tempo de remar contra preconceitos estabelecidos muito antes de Abril. Trabalhei durante todo esse tempo com pessoas que não pensavam da mesma maneira que eu. Travei duros combates. Políticos, ideológicos, reivindicativos e negociais. Com patrões, governos e parceiros sindicais. Mas coloquei sempre acima de tudo os interesses das/os trabalhadoras/es que representava. Por elas/es fiz acordos. Por elas/es assinei contratos. Por elas/es estive nas ruas e nas lutas. Por elas fui para congressos sindicais com propostas alternativas à maioria reinante. Em todo este percurso fiz amigas/os, que ainda hoje perduram no tempo e ganhei o respeito de muita gente por quem tenho o máximo de consideração. É por isso que me aflige ver a actual situação sindical. As lutas caíram numa situação de impotência. As acções de rua são cada vez mais pequenas. As criticas à actuação sindical, por parte das/os trabalhadoras/es estão a cada canto da esquina. Salvo raras excepções, poucos são os porta vozes sindicais, que têm exército por detrás de si. Muitos dirigentes estão envelhecidos pois a lei da vida é mesmo assim e não se vislumbram muitas alternativas. Nos sectores mais pujantes onde ainda há capacidade de luta e reivindicação nota-se já uma certa desmobilização. Tudo isto é mais agravado com as políticas de direita, com a retirada de direitos e com a precariedade das actuais relações de trabalho. É verdade. Mas será que não são necessárias, outras respostas, por parte dos sindicatos? Será correcto manter a organização e as mesmas formas de luta sem procurar introduzir alterações? Há quatro anos quando sai da USAM escrevi um documento com as minhas preocupações sobre a situação sindical da Região. Esse documento ficou como um alerta interno. Era um contributo para um debate necessário. Até hoje nada foi feito, nem o debate nem a reflexão colectiva. Tudo se manteve igual e até pior pois as dificuldades hoje ainda são maiores. Há dirigentes que acham uma perda de tempo reflectir, preferem o tarefismo. Mas a vida ultrapassa-nos. Se não a acompanharmos, ficamos pelo caminho. Estão em causa organizações fundamentais para a vida diária de quem trabalha e para a própria democracia. Defendo que os sindicatos têm de ser mais transparentes na sua acção sindical. Que a unidade de quem representam deve estar acima de qualquer interesse de partido ou de grupo. Que devem ser verdadeiras CASAS DOS/AS TRABALHADORES/AS, e que por isso mesmo seria de pensar na introdução do método de Hondt nos estatutos sindicais como forma de criar dinâmicas de unidade e participação sindical para que todos se sintam representados acabando com o monolitismo das direcções actuais. Considero que existem demasiadas estruturas sindicais na Região que deveriam ser repensadas. Sou contra a divisão sindical como está a acontecer no sector do comércio. Se o sindicato não está a trabalhar bem, apresentem lista alternativa mas não cavem mais divisão. O que precisamos é de sindicatos mais fortes com capacidade reivindicativa e negocial, capazes de liderar lutas fortes. Acho fundamental dar mais importância à formação de novos quadros sindicais. Mudar a forma como se faz a informação sindical utilizando as novas formas de informação. Valorizar o trabalho de resposta aos problemas de quem trabalha. Ajudando, aconselhando e não apenas mandar para o contencioso ou para a IRT com acontece na maior parte dos casos. Os/as dirigentes têm que acompanhar sempre os/as trabalhadores/as para eles/as sentirem que vale a pena estar sindicalizado/a. Quando sai há quatro anos deixei 17 perguntas que careciam de resposta. Tenho a certeza que se fosse feito um esforço em encontrar essas respostas talvez a acção sindical, particularmente da USAM, não estivesse tão fechada e fosse mais atractiva para os sectores que não são filiados. Espero que o próximo congresso do dia 19 de Maio, encontre as respostas mais acertadas para que a acção sindical seja mais forte e eficaz.
Guida Vieira