Fábio Henriques A afluência ao Pingo Doce, no passado dia 1 de Maio, está a ser analisada a partir de um pressuposto completamente errado. Todos os comentários que até agora li e vi, partem dos factores preço e crise. Ora, se é a pobreza que está na base deste fenómeno, como se explica que as pessoas tenham à partida logo 100 euros para desembolsar de um dia para outro. O fenómeno marketing, não visa a atenção pelo preço, mas a mobilização espontânea dos sentidos puramente egoístas do ser humano, enquanto indivíduos movidos por desejos, que só se afirmam perante os outros e contra os outros. Na minha opinião, as pessoas na sua maioria, não foram ao Pingo Doce para aproveitarem a campanha, mas para se afirmarem perante o outro. E pensavam enquanto corriam: eu estou também aqui, não penses que é tudo para ti, porque eu também sou esperto, mesmo mais esperto do que tu, e vou aproveitar melhor a campanha. Vou-te ganhar! Ora, o que se passou foi uma acção num cenário de competição inconsciente. Prova disso, são acontecimentos como brigas, corridas de carros, roubos ao carro alheio, destruição de produtos para não serem adquiridos por mais ninguém, palavreado, e outros motivos cénicos típicos de brigas de bar de alterne. Tenho pena das pessoas que realmente se deslocaram ao local, para aproveitarem a promoção. Das duas uma: ou mandou o bom senso que fossem embora, ou foram apanhados pela febre da gula, e inevitavelmente estragaram o seu feriado. Acho que chegou a hora de neste país se deixar de comentar tudo com base no preço e na quantidade. O fenómeno vai muito para além do número. O problema é sociologica e psicologicamente complexo. De onde acham que nasceram Hitler, Estaline, entre outros?De um qualquer poder divino maléfico ou da própria sociedade, onde cada individuo se desresponsabiliza, e onde a culpa está sempre do lado do outro, seja do governo, do vizinho ou do tempo? Nós fazemos a cama onde nos deitamos. Enquanto portugueses, vós, eu e os demais, merecemos o país onde vivemos.