Um dos maus hábitos fomentados nas últimas décadas, em todos os sectores da sociedade madeirense, logo com responsabilidades bastante distribuídas, resulta da cultura do convite. Ou das borlas, para ser mais específico. Não há evento nenhum que não se subjugue a este péssimo hábito, que está de tal forma enraizado que já nem damos por isso: a ‘lata’ de pedir convites, ou borlas, circula por aí com a mesma espontaneidade com que os promotores de eventos os admitem, logo à partida. E a ‘lata’ sobe na proporção do estatuto de quem ‘exige’ a borla. É assim há muito tempo, nada vai mudar, portanto nem chega a ser encarado como problema. Na abordagem a este tema há que distinguir algumas situações. Primeiro há que separar o tipo de eventos entre os que precisam de mostrar gente, dê lá por onde der, e os outros que precisam de bilhetes vendidos para alcançarem os resultados a que se propuseram. Em relação aos primeiros, nada a dizer, a ‘borla’ é um risco perfeitamente calculado, assumido e orçamentado; mas no que toca aos restantes, que por detrás têm uma organização com custos que legitimamente precisam ser recuperados ou atenuados, há que inverter o terrível hábito. Neste capítulo, bem piores são os ‘borlistas’ dos eventos com fins humanitários ou de solidariedade e que nem mesmo assim conseguem ter o discernimento de desembolsarem 5, 10 ou 15 euros... Mesmo no que toca aos eventos que acarretam custos e geram despesas incontornáveis, é compreensível que os seus organizadores façam questão de convidar um governante ou um autarca, uma entidade que os acarinhou ou os órgãos de comunicação social que promoveram a iniciativa. Mas um governante não é o governo todo; um autarca não pode ser a autarquia toda; um órgão de comunicação social não pode ser todos os seus jornalistas. E por aí fora. Aqui chegados, confrontamo-nos com mais uma realidade confrangedora: quando a generosidade das organizações se excede, cedendo ou confiando vários convites a uma entidade ou ‘alguém importante’. É que na esmagadora maioria dos casos as ‘borlas’ são redireccionadas e redistribuídas precisamente para quem, à partida, reúne mais condições para comprar os bilhetes. Ou seja, as ‘borlas’ vão precisamente para quem não precisaria delas para aceder aos eventos. Pois é, quanto mais alto é o estatuto social, mais borlas tem... Ao invés, muitas das pessoas que gostariam de participar ou aceder aos eventos, por vezes não o fazem porque têm de fazer contas e não podem ir a todas. Muitos esforçam-se e compram o bilhete. Depois, lá dentro, na sala ou no local do evento para o qual pagaram, vêem estenderem-se passadeiras e outros salamaleques a quem menos merecia uma borla... Pior: vêem o amigo ou a amiga do ‘sr. importante’ com os mesmos ‘direitos’, muitas vezes seguidos por ‘trupes’ inteiras nas mesmas condições. Não pagam e ainda por cima são melhor tratados. Decididamente, não faz sentido. Reconheço que esta reflexão tem o seu quê de mesquinha, tantas são as pessoas que já se viram embrulhadas nesta terrível trama da borla. Que ao menos sirva para revermos este comportamento, antes de ‘exigirmos’ o próximo convite...