São pequenas fotografias quadradas e está lá tudo. A vida antes de hoje. Primeiro a preto e branco, com sombras, algumas desfocadas, outras de enquadramento incerto.

Numa delas. um muro em primeiro plano, e, ao longe, o meu pai segura-me nos braços. Tenho um vestido e um chapéu que a foto diz serem brancos. Seriam mesmo? É contudo real o sorriso, o meu e o do meu pai.

Numa outra, eu, o meu irmão e um cão. A minha mãe ensina-me que é o Piloto. Diz que era castanho e não cinzento como a foto jura ser. Dava a pata e tinha uma casa com o nome pintado a indicar a pertença, o baptismo que o tornou nosso, a ele e a todos os outros que partilham a memória e as fotos.

Aos poucos, as fotografias enchem-se de crianças, até sermos cinco e sempre mais um cão, como nas histórias de Enid Blyton. Temos diferentes tamanhos mas o mesmo coração, o mesmo sangue que pinta os joelhos esfolados.

Estamos na escadaria que dá acesso à casa, misturados com os vizinhos. Meninos em futuro, em sorrisos para a máquina mágica que alguém segura e que prende a imagem e o tempo.

Mesmo assim, crescemos e ganhamos cor. Ao princípio incerta, como numa polaróide apagada pelos anos. Parecia estar sempre sombra nas primeiras fotos que se queriam coloridas. O céu tem um tom estranho, as minhas calças favoritas não brilham como as recordo e a camisola azul com o elefante parece castanha. Ainda ensaiávamos a cor e tantas outras coisas.

Um salto e estamos na escola. A foto é profissional e toda a gente tem uma. Atrás de nós os desenhos, e depois o nosso sorriso triunfante de quem conquista as letras e os números. A caneta na mão, o livro aberto, encenado para o fotógrafo que nos pinta assim, penteados pela professora, crescidos para as histórias e para a vida.

Está ali toda a técnica de quem sabe o que faz. Até se conseguem ver as nossas sardas e aquela cicatriz no dedo de tentar serrar a tábua que era suposto se ter transformado em carro de ligamentos, mas que ficou tábua para sempre. De verdade só essa cicatriz que apenas existe nas fotografias e que já nem é possível de ver na pele real.

São mesmo uma segunda pele estas fotos que constroem a memória e que nos trazem até hoje sem esquecimento. Fazem-se a nossa história e permitem um certo regresso. Somos nós e os nossos, mesmo os que já cá não estão, mas que continuam sorridentes a nos apertarem em abraço. São um desafio à morte e à saudade.

E, de repente, são todas presente: nós ainda meninos, vestidos de branco, camisolas e elefantes de cores trocadas, o Piloto de cauda a abanar e o meu pai e segurar-me nos braços.

É a vida a cair toda para dentro de uma fotografia.