Nos últimos dias a imprensa portuguesa, nomeadamente a de expansão nacional, tem revelado diversos casos de sucesso entre empresas, quer no mercado interno, quer no mercado externo, que pressupõem avanços interessantes e em contra-ciclo com o cenário de pessimismo e desânimo para que fomos atirados. No turbilhão do desemprego e da contestação, da falta de saídas para os muitos profissionais qualificados que se apresentam no mercado, e dos incitamentos à emigração, já que o País está sem resposta para tantos desocupados, começa a aparecer uma luz mortiça, mas reveladora de que algo está a ser feito para que a esperança vença os inúmeros constrangimentos que afectam o curso normal deste País e deste Povo. Há finalmente forças interessadas em calar este desencanto, chorado em surdina pelos cantos das cidades e das vilas portuguesas. O que nos últimos dias nos tem chegado ao conhecimento nem é sequer o aproveitamento das tais janelas de oportunidade, que os economistas contrapõem ao discurso da crise. São resultado de boas práticas e melhores desempenhos, de empreendedores e de empresas que se prepararam e que agora colhem resultados. O que temos visto são essencialmente marcas e empresas portuguesas que não se redimiram ao infortúnio, mas antes enfrentaram a adversidade com ponderação e criatividade, aceitaram o desafio e procuram ultrapassar, com esforço, qualidade e determinação, a tendência negativa dos negócios, e a quebra do mercado nacional. Ainda ontem foi anunciado que duas empresas portuguesas de construção civil e obras públicas (Soares da Costa e MSF) ganharam em Angola um contrato de 189 milhões de euros, e que a Sogrape Vinhos, que produz o afamado ‘Mateus Rosé’ (que é o vinho que mais se vende na cidade de Nova Iorque, por exemplo), comprou uma destacada empresa vitivinícola espanhola. São dois casos, entre muitos. O primeiro mostra que é preciso ir à procura de trabalho e de clientes no estrangeiro, já que em Portugal o sector de construção civil e de obras públicas está praticamente parado. O segundo demonstra que há empresas fortes no nosso País, de relevância internacional, e que não têm complexos em expandir-se para o exterior quando pretendem crescer e passar a dimensão que caracteriza uma empresa de âmbito nacional. Reconheço que hoje, num cenário de crise e de uma carga fiscal incomportável com a dimensão das empresas e do mercado, é cada vez mais difícil e arriscado ser empresário. Mas a verdade é que a recuperação do País está em grande parte nas mãos desta classe, obrigada por todos os portugueses a pensar, trabalhar e actuar no sentido de criar riqueza e criar postos de trabalho. E muitos têm-no feito, já neste início do ano, com habilidade e sucesso. Contudo, há um facto indesmentível, ao qual se exige aos políticos uma solução rápida, antes que os que agora levantam a cabeça, não sejam novamente sufocados por uma onda mais alta: não poderemos viver por muito mais tempo com as restrições impostas. É preciso lançar dinheiro na economia, é necessário recuperar hábitos de consumo para os produtos e a moeda circulem, cumprindo o ciclo das trocas e recuperando todo um circuito comercial que não pode sofrer tão grande estrangulamento. Nunca será demais lembrar que somos nós que estamos obrigados a criar e a velar pelo nosso sucesso. É este compromisso que devemos assumir e contribuir para que os produtos portugueses sejam consumidos em Portugal também. Esta valorização é directamente proporcional à nossa própria valorização como cidadãos e à responsabilidade que nos obriga e é inerente a essa condição. Atirar as culpas para os políticos será sempre o derradeiro remédio, mas nem por isso o nosso caminho para a felicidade. Devemos actuar com objectivos que nos tragam de regresso a esperança perdida. De outra forma continuaremos a engrossar a manifestação de pesar nacional, que chora a desgraça que se abateu sobre o País, e que não tem ou apresenta soluções, nem sequer dá um passo para punir os responsáveis pela bancarrota, nem os que ousaram trair a nossa confiança e que nos obrigam a deitar pela algibeira fora aquilo que já não temos. Culpados seremos se continuarmos a confiar naqueles que nos fazem mal, que nos espremem há tantos anos e que se desculpam com os inimigos externos e os inevitáveis contratempos circunstanciais na hora de prestar contas ao povo. Se não entenderam o que escrevi, tenham em atenção um anúncio que surgiu na televisão por estes dias de Páscoa sobre a carne de borrego nacional. Espectacular, porque bem explicado. Porque havemos de comer o que vem de fora? A que produzimos cá é melhor do que a que vem de fora e mais fresca. Neste caso com preços semelhantes. Mãos à obra. O plano que deve ser executado é de recuperação do nosso orgulho e da nossa condição de cidadãos de um país que tem tudo para dar certo. Se não der a culpa será nossa. E não dará certamente se, pelo menos, não produzirmos para comer. Lá fora os Portugueses costumam fazer melhor do que fazem no País?! Normalmente até é verdade… Porquê?!