José Viale Moutinho É de saudar o espectáculo com que se estreia a nova companhia Teatro do Bolo do Caco. Excelente adaptação ao teatro da obra memorialística Dona Joana Rabo de Peixe, da autoria de João Carlos Abreu, fica a dever-se a dramaturgia e a encenação a Xavier Miguel, um nome emergente no teatro da região. No entanto, surge a questão, que tipo de teatro é este? Como podemos ver em palco um espectáculo tirado das paginas de um livro de memórias de uma rua da cidade do Funchal, a Rua de Santa Maria? Pois arriscamos que se trata de um vaudeville à Xavier. Uma revista muito particular, com qualidade e inteligência, onde pontifica a liberdade livre (ó grande senhor Rimbaud!) que faz contracenar a riqueza da linguagem com a pobreza dos recursos. Uma companhia de gente nova carregada de boas vontades, vozes ainda pequenas, mas que ainda estão em processo, aprecia-se como um encenador se vê e se deseja para construir um espectáculo num espaço tão reduzido como o que conseguiu no andar nobre do 116 da rua que homenageia. Por outro lado, a absoluta planura da sala cimentada faz perder as vozes, mas o espectador tem de por-se a pau com o que está a ver e, por vezes, soerguer-se na cadeira. Entre João Carlos Abreu e Xavier Miguel estabeleceu-se uma cumplicidade na reconstrução de uma zona da cidade que é transmitida a novas gerações de funchalenses com foros de novidade. Um espaço museológico de velhas sombras que ainda fazem rir com gosto. Um novo caminho para o teatro madeirense, uma novidade a explorar, uma bilheteira a que parece garantir a companhia. E o João Carlos Abreu que vá pensando em reeditar o seu Dona Joana Rabo de Peixe, pois este espectáculo é a garantia de que o livro continua muito interessante e perfeitamente legível! O Xavier Miguel, com a sua companhia e o seu público, que o diga!