
A mais recente novela em torno da sucessão de Alberto João Jardim no PSD até poderá ter um final igual ao dos romances anteriores, com o mesmo protagonista e enredos semelhantes, mas uma coisa é certa: já não é possível negar, ou sequer disfarçar, as grandes divisões num partido que terá de aprender, rapidamente, a conviver com disputas democráticas internas.
Miguel Albuquerque avançou e, independentemente do resultado da sua candidatura, quebrou um tabu que durava há mais de 30 anos: enfrentou o líder vitalício. Disse que concorria contra quem lhe aparecesse à frente, mesmo que fosse o próprio Jardim. Um sacrilégio segundo a liturgia 'laranja'.
Blasfémia de tal dimensão que levou a que velhos e novos, dos mais chegados ao líder honorário, dessem um passo em frente a apregoar a sua lealdade e a esconjurar quem teve a ousadia de contestar os desígnios superiores.
Até o órgão oficioso do partido se apressou a enxovalhar o 'herege' e a família e a mostrar apoio incondicional a qualquer um que se apresente, desde que indicado pelo chefe. E apareceram.
Se o chefe não estiver disponível, estou cá eu! Foi assim que Manuel António Correia apresentou a sua possível candidatura à liderança do PSD. Avança na condição de suplente.
Com um percurso político, partidário e governativo completo, o secretário regional do Ambiente e Recursos Naturais tem toda a legitimidade para ser candidato a líder do seu partido, contra quem lhe aparecer à frente. Até o próprio Jardim. A sua candidatura deveria ser a consequência natural de uma carreira política que, tal como Albuquerque, começou muito cedo, nas bases do partido. Uma corrida à liderança entre os dois, ou com mais alguns candidatos com igual legitimidade, seria um sinal de maturidade do PSD.
Não se compreende, por tudo isso, que se apresente como o 'fiel escudeiro' de quem já anunciou, uma dúzia de vezes, que vai embora. Porque o risco político é muito grande, se Jardim, mais uma vez, der o dito por não dito.
Se Jardim concorrer à liderança, contra Albuquerque, estará a passar, desde logo, um atestado de incompetência política a todos os seus incondicionais. Nenhum, segundo o ainda líder do PSD, terá capacidade de enfrentar o presidente da Câmara do Funchal. Não sei se Manuel António Correia já pensou nisto...