"Não existem bruxas nem coisas más, só existem coisas boas". A Teresa tem três anos e declara esta certeza que não consegui, nem quis contrariar. Como fazê-lo sem denunciar que também já acreditei em lugares seguros e em certezas inabaláveis.

A Teresa, felizmente, ainda não sabe ler, e quando o souber fazer, espero que as notícias sejam outras, que os jornalistas escrevam sobre esperança e dias melhores, e que os jornais somem mais páginas de projectos do que de crise.

Infelizmente, para nós, que já sabemos ler as letras e o mundo, os ventos que sopram dizem-nos que existem coisas más, que o mundo que conhecíamos até agora eclipsou-se, que os lugares mudaram a sua geografia mais profunda, aquela que vai além das ruas e dos mapas, aquela que que nos traz em passos incertos até o presente.

O chão que pisávamos afinal não era nosso, os modelos de sucesso, os lugares comuns de certezas abalaram e ruíram como baralhos de cartas.

E para perceber o desconcerto do mundo, nem é preciso uma lente de longo alcance, um 'zoom' profissional, ou um mapa. Basta olhar em volta, para a ilha-jardim de sucesso e ver o abalo, o colapso.

O jardim atlântico do sucesso desembocou num beco sem saída, onde impera a certeza de que o pior ainda está para vir.

A ilha de sucesso, que dava lições ao continente atrasado e mal governado, foi varrida por uma investigação sem memória, que vasculhou lugares e gente que marcaram a história recente do apregoado desenvolvimento regional.

As provas recolhidas foram levadas de avião militar, enquanto em terra ainda se desenha um movimento desesperado para tentar fazer passar a imagem de que se fez tudo certo, de que, como sempre, a má vontade vem de fora, e de que o nosso modelo apenas não vingou porque não nos entendem ou não gostam de nós.

Infelizmente, já não é possível acreditar mais. Os contos, do vigário e os outros, precisam de uma ajuda da realidade e a realidade grita por todos os poros que o modelo falhou.

O alarme social de que esta semana falava um comunicado da Quinta Vigia não está no facto de se estar a averiguar as possíveis falcatruas que se cometerem, está no verdadeiro alarme social que atinge famílias inteiras. Está no alarme do número de desempregados em crescendo, está nos salários em atraso, na devolução das casas ao banco, nas empresas que fecham as portas, nas lojas e centros comerciais vazios, nas contas que se fazem junto à caixa do supermercado. O alarme social grita por todo o lado e abafa cada vez mais a voz dos que ainda tentam, de forma desesperada e às vezes hilariante, manter uma imagem de normalidade perante o desmoronar de tanta coisa.

O jardim está definitivamente em revolução acelerada e vai levar muita coisa à frente. Infelizmente, vão pagar os culpados e os inocentes. E de tudo isto apenas restará a certeza de que os jardins, metafóricos e reais, também se auto-abatem.