Eu, um madeirense comum, residente na capital do país há 17 anos e sem aspirações de pertencer a nenhuma elite funchalense, ainda fico um pouco perdido, estupefato e banzado, quando leio, com atenção, a forma como o PSD/M insiste em fazer política nesta região autónoma. Cedo me apercebi de como funcionam "as coisas" no imenso laranjal numa terra conhecida por ser fértil em bananas. Como "tudo" é tratado e que significado se dá à palavra "democracia". Se é verdade que em todos os partidos há intrigas, lutas intestinas pelo poder, facadas nas costas, maledicência, grupos e grupelhos, no PSD insular quase tudo de reveste de particular mesquinhez e de baixaria miserável. O que tenho observado nas últimas semanas, desde que o "bem falante" Miguel Albuquerque se lançou na arena com vontade de afastar de vez o "macho dominante" do território, é no mínimo digno de um argumento de uma telenovela mexicana de mau gosto. O bem parecido presidente da Câmara Municipal do Funchal tem sido acusado, pela frente e pelas costas, de ser tudo e mais um par de botas: um traidor, um catavento, um oportunista, de ser maçon, um galante instável, ponta de lança do primeiro-ministro Pedro Passos Coelho para eliminar de vez o senhor todo poderoso do partido na Madeira, que há muito já se deveria ter retirado, possibilitando uma saída honrosa e respeitada. O oficioso "Jornal da Madeira" assevera que Albuquerque quer rebentar por dentro o PSD/M. Pois então que o faça. Os relatos que me chegam põem a nu o pior do aparelhismo, dominado por baronetes acossados, mal vestidos e ressabiados, agora inseguros e a ver os respetivos reinados a cair de podres. Não sei se a vontade e a determinação de Miguel Albuquerque vão ser suficientes para o fazer chegar à liderança dos social democratas da Madeira, nem sei se depois terá a coragem de limpar a imundície acumulada pelos cantos bafientos da casa, repleta de caciques, da pior bufaria e dos homens de mão do ainda líder, ferido, cansado e indesejado pelos atuais inquilinos da São Caetano à Lapa. A tentativa de conspurcar o nome de Albuquerque não é recente. Lembro-me que quando trabalhava na ilha de ouvir comentários pouco abonatórios ao então jovem autarca, que muitos já confidenciavam ter vontade de um dia suceder ao na altura energético Jardim. Uma das coscuvilhices que retive prendia-se com a sua vida privada, causadora à época de muitas invejas sussurradas nas mesas dos cafés da baixa. Dizia-me fonte laranja, sempre bem informada: "como é que ele vai por em ordem a câmara (do Funchal) se nem é capaz de organizar a casa dele?" Já era conhecido o bom desempenho do agora candidato no domínio feminino e o epíteto de "pai herói". Sempre considerei miseráveis aquelas e outras "bocas", que fizeram carreira e mostram-se agora à descarada. Não por visarem diretamente Miguel Albuquerque, pessoa com quem me cruzei algumas vezes, devido a afazeres profissionais, mas por se atirar um género de lama que desacredita a política e os políticos, reduzindo-a apenas um imenso campo de interesses pessoais e domésticos. Independentemente do que possa vir a ser este candidato, é muito bom que tenha vindo a terreiro baralhar o jogo. Um olhar desprendido que a distância permite dá-me a sensação de uma brisa fresca, numa região cansada de respirar o ar miasmático de um grupo eleito, deslocado e definitivamente ultrapassado no tempo.
Roberto Ferreira