Abril, será sempre o pretexto para os habituais desfiles de exibição de paternidades? Terá que incluir, sempre, esta espécie de pagamento de uma taxa obrigatória em vez de um tributo à e pela liberdade. Estaremos para sempre presos aos que tendo sido provocadores da liberdade agora querem ser donos do que a todos pertence? A liberdade de Abril não é mais do que o direito natural de todos os portugueses. O direito de ser, de querer ou não querer, e não uma obrigação. Aos capitães de Abril, a honra, enquanto actores, os únicos possíveis já que detentores de força e meios, de terem dado expressão concreta à vontade popular pela busca da democracia, contra um regime assente na degradação da condição humana, pela imposição da ignorância, pela falta de educação, pela força e pela exploração dos direitos humanos. O reconhecimento do mérito e da coragem dos capitães de Abril, por esse passo decisivo, que devolveu a liberdade a Portugal, não pode ser contrariado por uma espécie de chantagem que anualmente nos invade em detrimento de uma comemoração projectada no futuro. Sendo legítimas todas as tomadas de posição, opiniões e propostas politicas, sejam elas dos capitães de Abril, dos antigos Presidentes da República ou de qualquer cidadão anónimo, essa legitmidade perde-se quando, seja quem for, pretende tomar conta daquilo que é de todos. O 25 de Abril, é e será sempre do povo de Portugal, quer os capitães de Abril estejam, quer os ex-Presidentes não estejam com vontade. Aliás, talvez seja interessante um 25 de Abril sem o peso dessa presença, o que aliás se verificará, em definitivo, não tarda muito, pelo inexorável poder das leis da vida. Acabará o 25 de Abril quando os capitães de Abril, por vontade suprema não puderem comparecer? Portugal continuará a celebrar esse momento ímpar da sua história recente, de forma livre, participada e espera-se, olhando para o futuro. Com respeito pela memória, com reconhecimento aos heróis mas, livre de qualquer chantagem emocional ou de vaidades paroquianas e pequeninas, aliás bem ao estilo do que era o Portugal pequenino, isolado e atrasado que o 25 de Abril derrotou. Está por isso na hora de devolver o 25 de Abril ao povo português e de este revogar essa espécie de procuração não cumprida que parece fazer do 25 de Abril uma propriedade privada de acesso restrito. É tempo de perceber que reduzir o 25 de Abril à paroquiana discussão sobre quem deve aparecer na primeira fila em discurso inflamado. Memória sim mas, livre, participada, por todos, é o que deve ser o 25 de Abril, sempre. Insistir na cíclica discussão vazia de conteúdos, em que a notícia é o não estar, em vez do celebrar é matar o 25 de Abril, é mostrar aos portugueses de hoje um paradoxo que complica a percepção do real conceito de liberdade. Portugal, com as suas dificuldades, injustiças, péssima gestão politica e económica, deficiente organização, é, apesar de tudo isto, livre, graças ao 25 de Abril. Poucos continuam ainda presos e lamenta-se que alguns deles sejam precisamente dos que mais lutaram e se arriscaram em nome de uma liberdade com a qual, agora, parece não saberem lidar. Precisa o povo português de retribuir, em celebração, libertando os capitães de Abril, mostrando-lhes que somos capazes de prosseguir, em liberdade, democracia e sem amarras de qualquer espécie, rumo ao futuro, um futuro em que o 25 de Abril será, sempre.

António Domingos Abreu