Manuel João Baptista Rosa 1. Ingressei no Exército, como soldado cadete, no 4º turno/73. 2. Estando já na Escola Prática de Administração Militar dá-se o "16 de Março", mais conhecido pelo "golpe das Caldas". 3. Entre esta data e o 25 Abril jurei bandeira, aliás, jurou a pessoa que leu o texto ao altifalante, pois entre nós, aspirantes a oficiais, só se ouviam insultos contra o significado da cerimónia, o que já revelava um elevado grau de consciência política, de alguns, face à natureza do regime. 4. Na manhã do dia 22 de Abril fui abordado por outro cadete, meu conhecido dos tempos de estudante e activista anti-regime, com vista à minha adesão a um novo golpe militar. Confesso que hesitei mas o capitão Bento (responsável pela tomada da RTP), que estava por perto, entrou na conversa e convenceu-me com o argumento de que desta vez o golpe sairia vitorioso. 5. Nos dias 22 e 23 "os contatados" reuniram, pela noite dentro, numa casa particular, para discutirem a natureza política do golpe. Entre os mais activistas anti-regime - António Reis era um deles - existiam dúvidas quanto à natureza política do golpe (temia-se mesmo o envolvimento da extrema direita) mas a decisão foi a de avançar, pois pior não podia ficar. 6. No dia 24 "os contatados" voltaram a reunir, desta vez no quartel, pelas 22h, para se equiparem e distribuírem as tarefas a executar: prender alguns militares, cortar comunicações e tomar a RTP. 7. Todas as operações foram concretizadas com sucesso, inclusivé a tomada da RTP onde estava apenas um guarda da PSP. 8. Pela noite dentro soube-se que a operação estava em marcha, com base na transmissão, via rádio, das canções do Paulo de Carvalho e do Zeca Afonso. 9. No dia 25 milhares de pessoas passaram junto ao quartel, completamente eufóricas, agradecendo e inclusivé oferecendo coisas aos militares. Hoje sinto-me lisonjeado por me ter sido dada a oportunidade de participar no golpe militar que devolveu a liberdade ao país e que, consequentemente, pôs termo à guerra colonial, embora ainda tenha ido a Angola, mas na fase de descolonização.