Aceitei ser turista por umas horas no passado sábado. Hospedado em casa, fiz-me à estrada com os meus filhos, que me agradeceram a experiência inédita de, num curto espaço de tempo, verem de perto e até fotografarem carros clássicos, “parecidos aos dos filmes”, bem como apreciarem os prodígios de uma natureza fértil em cores e cheiros, em flores e plantas.
O objectivo era sentir os eventos como se nunca os tivesse vivido. É um bom exercício. Dá-nos a sensação que podíamos ser turistas felizes todo o ano. E repórteres, mesmo sem carteira profissional, sem colete vistoso e sem jeito para o enquadramento, tal a profusão de momentos prontos a ficarem para a história. Bastava que a ‘animação’ fosse bem programada e comunicada, que independentemente do motivo da festa tivesse sempre o cuidado de mostrar o que é nosso, de exibir sem vergonha o talento por vezes reservado e que chegasse a toda a Região. Matéria prima, criatividade e palcos não faltam. Haja coragem para empreender sem esperar pelo tradicional subsídio, para mostrar sem medo da crítica e para agendar sem estar à espera do retorno imediato.
Os dias de festa em torno da flor foram dinâmicos. Para além de darem vida à baixa funchalense, premiaram a zona hoteleira e, sobretudo, comprovaram que os grandes eventos não se fazem só com dinheiro, para um só dia e só para turista ver. O bem sucedido Classic Auto Show é a prova que a junção de boas vontades, da capacidade organizacional e o envolvimento das vítimas do elitismo proporcionam um espectáculo único, a repetir e a melhorar. É a prova que os grandes cartazes de uma Madeira que ser activa todo o ano exigem complementos de qualidade, sem terem que ser necessariamente oficiais e reféns do regime. É a prova que temos gente que sabe estimular as parcerias e permitir que os madeirenses tenham orgulho num espólio inimaginável, já que para os turistas o maior espanto foi perceber que a ilha angustiada não é habitada só por quem espatifa heranças, por quem não preserva património e não estima o passado.
A diversidade construtiva e edificante afirmou-se por estes dias entre clássicos e flores, ballet e bailes, na sã convivência entre residentes e forasteiros. Vi esplanadas preenchidas, milhares de máquinas fotográficas a registar a beleza, crianças que simbolizam esperança, a vaidade natural que marca quem é festeiro, mas também alguns anfitriões sem pachorra, comércio fechado, automobilistas sem escrúpulos e preços exagerados.
Se fosse turista acidental, voltaria para o ano. De preferência sem ter que levar com o João Baião em transe em pleno cortejo da flor, ou com aqueles que invadem jardins e se empoleiram em plantas para ver passar os figurantes. Sem ter que aturar farsas oficiais e embustes que oportunamente revelaremos. Mas também para ver como estará na altura a outra ilha sem festa.