Quando estas linhas saírem no DN, realizaram-se já as eleições para a presidência da república francesa e, se as sondagens tiverem acertado, teremos, para a segunda volta de 6 de Maio, os dois candidatos esperados. Saem do cenário os candidatos mais radicais que, de extremo a extremo, nestes últimos tempos, nos ilustraram a grande diversidade de opiniões e de soluções preconizadas para a crise que grassa por essa Europa fora. Com a saída de cena dos radicais, regressamos à habitual discussão sobre os "dois lados do meio-termo" da qual não queremos sair. Durante anos, pese embora a carga emocional que os dois lados desta contenda ao centro lhe têm atribuído, os eleitores sabiam que, no fundo, a escolha que lhes cabia se resumia à preservação do modelo existente, com pequenas variações de lado para lado que, em muitos casos, eram até mais de atitude do que reais. Em certa medida, estas eleições francesas poderão ser um sinal de que os eleitores (pelo menos os franceses) consideram que nada, ainda, justifica alterações a esse estado de coisas. Mas, o resultado eleitoral poderá ter consequências profundas no que diz respeito ao atual equilíbrio de forças no seio da União Europeia. De facto, a derrota eventual de Sarkozy a 6 de maio, poderá significar o fim do atual entendimento franco-alemão que, todos o reconhecemos, foi preponderante na história recente da União Europeia, pelo menos nos termos em que o imaginamos. Em certas alas, esta possibilidade tem vindo a transformar-se numa verdadeira esperança e verbalizada como tal, pelo caminho que poderá abrir à implementação de políticas menos austeras que as atuais, mais capazes de fazerem reviver as economias europeias e, em particular, as de países com maiores dificuldades, como é o caso de Portugal. Tal esperança é, a meu ver, demasiado otimista. De facto, nada indica que o enfraquecimento do eixo franco-alemão traga consigo mais do que um simples reequilíbrio de forças no seio da União Europeia. Se assim for, estas eleições implicarão, sobretudo, uma crescente dificuldade nas tomadas de decisão coletivas, o que, a acontecer, poderá contribuir apenas para o crescimento da desconfiança e um potencial agravamento a crise. A ver vamos.

Castanheira da Costa