José Martins Júnior No dia em que se completam sete anos de Pontificado de Bento XVI, achei útil trazer à consideração dos leitores, católicos ou não, excertos do artigo do especialista em assuntos de teologia e vaticanismo, Juan Árias, no “El País”, 16 de Abril p.p., 83º aniversário natalício do actual Bispo de Roma e Papa da Igreja. Sob o título “Y si el Papa renunciase a ser jefe de Estado?”, o autor retoma a velha e magna questão --- que sempre me ocupou e preocupou --- acerca da aberrante promiscuidade que “obriga” o Papa a conglomerar em si o título de representante de Cristo e, cumulativamente, o de Chefe de Estado. Juan Árias recorre à História para demonstrar que “a promiscuidade entre o poder espiritual e o poder temporal da Igreja vem do ano 756 (há mais de 13 séculos) quando o Pepino, o Breve, rei dos Francos, ofereceu ao Papa grandes territórios no centro da Itália, para fazer calar a Igreja que protestava contra a adoração ao Imperador. Mais tarde, em 1870, Victor Manuel extingue tais privilégios e anexa o Estado Vaticano ao Estado Italiano, autodeclarando-se Pio IX prisioneiro e vivendo das esmolas dos fiéis. Entretanto em 1929, Benito (Bento) Mussolini, fundador do fascismo, volta a entregar ao Papa os 40 hectares do Vaticano, com todos os direitos de Estado, inclusive o de criar banco próprio, mas com a condição de que os católicos militantes da Democracia Cristã dessem o voto ao partido de Mussolini e fizessem profissão de fé fascista. O Papa Pio XI baixou a cabeça e assim a Igreja de Roma fez-se fascista …modelou o direito canónico pelas normas do direito romano, viu-se obrigada a conviver com a ambiguidade de dois poderes, tantas vezes antagónicos, o temporal e o espiritual.” Nestes termos, interroga-se Juan Árias: “Como estranhar, pois, que o Papa chegue ao Chile e se abrace a Pinochet, chegue a Cuba e se abrace a Fidel de Castro, recusando-se a encontrar-se com os dissidentes e defensores das liberdades? Ou que Pio XII tenha enviado um telegrama de parabéns ao ditador Franco, quando este entrou em Madrid? ... É que o Papa, enquanto Chefe de Estado, tem de respeitar a liturgia política”. Vale a pena ler a História, sintetizada nesse precioso artigo de Juan Árias. Quanto às conclusões, essas ficam ao cuidado dos católicos e de todos os que procuram a Verdade. Judiciosamente observava o Pe. Prof. Dr. Anselmo Borges que o Vaticano não tem autoridade moral para censurar os clérigos políticos enquanto o Papa não renunciar ao estatuto de Chefe de Estado. Em final de um Pontificado abalado por dramáticas convulsões internas, seria um verdadeiro grito de Páscoa libertadora se Bento XVI inaugurasse um ciclo novo, renunciando peremptoriamente a esse privilégio espúrio e contraproducente. Eu sei e todos imaginamos o tsunami que significaria esta renúncia: despir-se-iam púrpuras e barretes cardinalícios, ruiriam palácios de embaixadores (por eufemismo denominados “núncios apostólicos”, como se Pedro Apóstolo, o pescador, alguma vez esperasse ter embaixadores reais), enfim, seria o desmoronar de todo um império mundano. Mas aí reapareceria Cristo na sua pujança original. Enquanto o Vaticano obrigar o Papa a apresentar-se como Representante de Pedro e, ao mesmo tempo, Chefe de Estado, ele, o Vaticano será sempre o muro da vergonha que não nos deixa ver a verdadeira face de Jesus Cristo, “aquele profeta de Nazaré, expressão do anti-poder que acabou cravado na cruz como um qualquer agitador público”.