Ler um jornal no seu suporte físico tradicional é um exercício cada vez mais raro. São cada vez em maior número os leitores on-line, e muitos os argumentos a favor desta fonte de informação - actualidade, rapidez, comodidade, custo, facilidade de consulta… Além disso, um jornal é um produto fechado, definitivo e efémero, que chega às bancas trazendo notícias "velhas" da véspera, bastas vezes já corrigidas, actualizadas, e profusamente comentadas na sua versão "navegável" da internet. Mas é precisamente essa ausência de comentários que constitui uma inestimável mais-valia do formato papel, por estar livre dessa praga moderna que são os "Cromos On line". Uma carta de leitor só tem garantia de publicação na imprensa se o seu autor se identificar. O texto provavelmente será revisto, expurgado de erros por via da correcção automática, e não passará se contiver insultos ou ameaças. É claro que continuam a existir cartas de leitor estapafúrdias, mas há regras que são cumpridas e uma linha de civilidade e bom senso que nunca é ultrapassada. Os Cromos On-line, pelo contrário, caracterizam-se por esconder-se quase sempre sob o confortável manto do anonimato, o que lhes permite o uso livre e imoderado do insulto, ou então optam por pseudónimos que já antecipam e revelam a sua verdadeira intenção - chatear os outros. Quiçá por falta de criatividade na ocupação dos tempos-livres, talvez por não possuírem recursos para procurar os cuidados dum profissional (leia-se psiquiatra), estes Cromos passam os dias a disparar contra tudo e todos, e até uns contra os outros…Há os que preferem comentar as notícias: se houve um acidente de mota, mesmo que não sejam claros os seus contornos, logo há quem acuse os motociclistas de abusar da velocidade, de desrespeito pelas regras, outro atalha que a culpa é da PSP, vem um cromo e diz que "só querem é multar", mais um que afirma que a culpa é do PSD, chega uma "croma" que acha que "deviem era ser todes mortes, esses capitalistas", e entorna-se o caldo… Outra classe "Cromática" tem ódio de estimação a quem escreve artigos de opinião. Já há algum tempo desisti de trocar galhardetes com cromos, porque é simplesmente inglório, pura perda de tempo. Se critico um partido ou um político de esquerda sou um "mamão que não larga a teta do jardinismo", e que de certeza ando "à procura dum tacho"; se assesto a pena num alvo da direita, sou um "comuna", e outros mimos deste jaez. Poderia ser exasperante, se não fosse tão ridículo. É por isso que muitos órgãos de comunicação estão a implementar sistemas de gestão dos comentários on line, que passam a ser moderados por uma equipa de editores: o "Público", por exemplo, fez um balanço positivo desta medida, congratulando-se o seu Provedor por ser possível oferecer aos leitores "uma edição electrónica aberta ao debate público, mas livre dos insultos e do lixo retórico". Liberta da linguagem ofensiva e das "incitações xenófobas ao ódio e à violência", é natural que as caixas de comentários do "Público on line" sejam crescentemente procuradas por quem queira participar na discussão útil e qualificada dos temas da actualidade e do modo como são noticiados". É uma sugestão que deixo ao DIÁRIO: comentários on line sim, mas investindo na qualidade em detrimento da quantidade. Deixaríamos de ler "falta-te a coluna vertikal"; "tu deves ser um tonto que nem sabe o que fala"; "ranhoso tens medo do partido PTP nào estavas habitoado a isto fasias o que querias e ninguem te disia nada facistas completos", pegando em apenas três exemplos recolhidos do DIÁRIO on line de ontem. Concluindo, ponderei escrever sobre as "peixeiradas dos Coelhos", sobre a "Guerra da Sucessão", ou sobre os actos de coragem de dois deputados do meu partido (José Manuel Rodrigues e José Ribeiro e Castro), e seguramente qualquer um destes temas mereceria os habituais comentários (favoráveis e desfavoráveis) e alguns insultos e disparates avulsos. Mas acabei dedicando este artigo aos Cromos, e o meu desafio é que não me dêem razão - resistam a comentá-lo, engulam as asneiras e as ofensas e sejam muito felizes.
Raul Ribeiro