Na psicologia colectiva de Portugal, 38 anos de democracia equivalem a um soluço histórico. Não se pode esperar que nesse intervalo de tempo se ultrapasse todos os efeitos nocivos da ditadura do Estado Novo. A PIDE enquanto instrumento policial repressivo gerou um clima de medo e desconfiança generalizado na população portuguesa, factor que ainda não cicatrizou por completo. Este clima de suspeita quanto à verdadeira essência do outro e a dificuldade em assumir cor são fenómenos que ainda vemos no nosso dia-a-dia. É repetida até à exaustão a desconcertante máxima "à mulher de César não basta ser séria, tem de parecê-lo". Que estranha hierarquização de valores, especialmente quando hoje deveríamos cultivar a defesa da democracia e da liberdade. A partir desta dicotomia profunda entre o ser e o parecer, questiona-se se será preferível uma aparente, mas ilusória, imagem de tranquilidade e união, quando sabemos que o mais natural no ser humano é a divergência e a competição. Desde que se salvaguarde uma noção comum do que é concorrência saudável, que todos rumem no mesmo sentido e que não se incentive comportamentos fratricidas, a competição transforma-se num bem para a sociedade. Não nos esqueçamos que tal como no mundo empresarial, a competição é o motor do crescimento. É tempo de trazer todas as mulheres de César para o século XXI, resgatando-as dos fantasmas do passado, e dizendo-lhes que no caminho para o progresso, o ser e o parecer são uma só coisa: a sua verdadeira alma.

Rubina Berardo - Economista