Diz-se com frequência que todas as pessoas têm os seus enigmas e aproveitando-me desta ideia, acrescentaria que todas as sociedades -por inerência- têm também os seus. O número exato de assalariados e de pensionistas do Estado em Portugal, por exemplo, representa uma matéria integrável nos mistérios da sociedade portuguesa, dada a dificuldade em serem apurados, pelo menos com a mesma rapidez e precisão com que se criam e cobram impostos. No que diz respeito ao impacto do Estado na formação da estrutura de emprego da Madeira, retenha-se a existência de um esforço de quantificação disponível. De acordo com os resultados de uma investigação publicada no Diário no final de 2009, estimava-se a existência de 35.000 empregos encastrados na esfera pública, que representavam 30% do emprego total existente na região (à data da investigação em 2009). Penso que podemos continuar a tomar estes valores como válidos, ainda que passados dois anos e meio, qualquer esforço de atualização, a ter efeito, provavelmente, revelaria como esta contagem de 2009 pecaria atualmente por defeito. Feita esta ressalva, portanto, 35.000 empregos ou 30% da estrutura de emprego regional são cifras a ter em conta, para se considerar o impacto resultante da perda de rendimento desta população de assalariados na dinâmica societal e económica da região. Por outro lado, o sociólogo Elísio Estanque (da Universidade de Coimbra) publicou recentemente um ensaio sobre o declínio que aflige a (sempre problemática) classe média, destacando não só a fraca solidez desta, mas também advertindo para o facto de o seuempobrecimento não ser propriamente um trajeto desprovido de implicações sociais e políticas… Alinhado com as assimetrias dominantes, à escala planetária em termos de distribuição e concentração de riqueza, o cenário ensaiado por este sociólogo para Portugal, remete-nos para um contexto social em que a classe média, que tem sido particularmente massacrada nos últimos anos, dá sinais de fragilidade e está a ser assolada pelo fenómeno da polarização social, sendo o seu declínio a expressão mais observável do estado de enfermidade que enfrenta, embora o declínio não corresponda forçosamente ao resultado final da transformação social em que ocorre. Considerando a tendência de declínio da classe média e a situação socioeconómica que se vive na Madeira, a reflexão que me parece inevitável, neste momento, fica porém inquietada, sobretudo, face à enormidade do próprio declínio da classe média regional e à sua dimensão absoluta, se tivermos em conta o número total de pessoas afetadas pelo desenho da curva descendente e abrupta do acesso aos recursos e pela diminuição anunciada dos rendimentos do trabalho. Em termos práticos, tendo em vista proceder a uma quantificação básica, confesso, tenho dificuldade em imaginar as consequências globais que resultarão, em termos médios, da supressão definitiva de 20% no rendimento global (sub. de férias e sub. de Natal = 15% + 5% de redução remuneratória) em 30% da população empregada, conjugada com o aumento simultâneo e generalizado da carga fiscal. Penso que esta é a fórmula brutal que traduz o tamanho médio do declínio que está a decorrer na Madeira, ou seja, a dimensão do esmagamento da classe média regional, mesmo sabendo que não é possível fazer coincidir todo o emprego público da região na classe média local, do mesmo modo que as consequências da diminuição do rendimento não terá impactos significativos apenas nas economias pessoais/familiares dos assalariados do Estado. Realmente, os tempos são de degradação e as evidências abundam no ensino, na saúde e mesmo no interior da atividade política e parlamentar; e -a persistirem nestes ou em piores moldes- ameaçam perigosamente as próprias instituições (e os seus atores!), que ao aparentarem irrelevância na ação, não prática,estarão a possibilitaa emergência gradual de novasconsequências, desestruturantes,para o dia-a-dia. De facto, a curva do empobrecimento que vivemos é ampla. Sente-se e tornou-se omnipresente: em pensamento e nos comportamentos. Só que a partir de agora, por muito que se queira, não será possível tomar por ilusório o impulso social que o declínio pode gerar. Começa a ser difícil imaginar até onde o declínio conduzirá uma sociedade que viveu fortemente embutida, nas últimas décadas, na ação supostamente providente do Estado; e que de repente vê-se dele órfã. Talvez por esta razão, quaisquer implicações sociais e políticas, a curto e a médio prazo, não serão propriamente coincidências, mas antes revelações a implodir a partir dos enigmas da sociedade que os criou.
Ricardo Fabrício