
Já ninguém tem paciência para as encenações circenses de vitimização histérica de José Manuel Coelho e dos seus comparsas. Imagino o quão o Partido Trabalhista Português está arrependido por se ter deslumbrado com os resultados eleitorais do ex-candidato presidencial quando decidiu lhe emprestar a sigla, tantas são as vezes que o nome do partido vem à mó de cima envolta numa neblina de escárnio e maldizer e tão evidente é o divórcio entre os dirigentes regionais e nacionais trabalhistas. E imagino também o quanto o PSD deve estar grato por haver um chocarreiro que inviabiliza a unidade da oposição, que a descredibilize e que tenha dotes de ‘entertainer’ e de contador de histórias de pólvora seca, enquanto o poder vai enfiando ‘barretes de olheiras’ ao povo com taxas de 15%.
Coelho pode continuar a insistir na teoria do espelho que reflecte a imagem dos ‘tiranetes do regime’ para que todos vejam a dimensão da monstruosidade. Pode insistir na superficialidade de denúncias inconsequentes. Pode terminar as sessões plenárias a esbracejar contra a alegada censura que diz ser alvo, forçando a interrupção dos trabalhos e atrasando a vida legislativa da Madeira só para que os deputados da sua bancada sejam arrastados para fora do parlamento aos empurrões e em grande zumbaria. Pode lançar mais uns archotes para a fogueira, incitando à violência, a pegar fogo às instituições públicas, a invadir a repartição das Finanças. José Manuel Coelho pode insistir na fanfarra narcisista e nos números diante dos holofotes que tem o dia ganho.
A sede de protagonismo mediático e a vontade de descredibilizar a réstia da dignidade da Assembleia Legislativa da Madeira, são tantas que quase anulam a postura de alguns deputados que ainda levam a sério o exercício parlamentar e fazem por enobrecer a vida democrática e por encontrar soluções para o ensombrado futuro dos madeirenses. Já diz o ditado que a coisa para ter graça, uma vez basta. Mas neste caso, parece que o objectivo deixou de ser o sarcasmo, a crítica e a ironia, para se tornar na obcessante procura do confronto permanente com o intuito de provocar situações de ruptura e mostrar ao mundo, a partir de um iPad a filmar em permanência nas sessões plenárias, o quão asquerosa é a Assembleia Legislativa da Madeira, ao nível de um parlamento da Ucrânia, da Nigéria, de Taiwan ou da Venezuela.
A missão do exercício parlamentar não é protagonizar cenas de um filme de acção. É lutar por encontrar um final feliz no terror das contas públicas e no drama das famílias madeirenses que mais parecem filmes. Os partidos e os deputados, bons ou maus, são meros realizadores de aspirações, de sonhos, de expectativas dos eleitores dos quais são mandatários. O povo é quem deveria assumir o papel de actor principal, usurpado pelo poder. Alberto João Jardim e José Manuel Coelho podem ter ideais e convicções absolutamente distintos, mas comungam do mesmo pecado capital: usam e abusam do povo em proveito do seu alter ego, invocando o poder do seu nome para legitimar as suas obcessões, as suas prepotências, atrocidades e excessos.
P.S.: Nem tudo foi histeria na Assembleia Legislativa da Madeira. Ontem, o PSD perdeu - pela primeira vez em 36 anos de Autonomia - a votação de um diploma, ao permitir que a oposição aprovasse, sozinha, uma proposta do PCP para a criação de um programa SOS/Criança com vista à protecção dos menores. É claro que este insólito só foi possível porque a bancada laranja baldou-se e perdeu a maioria para a oposição. Na anterior legislatura, quase todos os mandatários do povo podiam baldar-se, mas agora, ao ver reduzida a maioria para 25 eleitos, o PSD tem de restringir as ausências para não dar parte fraca.
O raro momento de pluralismo parlamentar desabrochou quase tão rapidamente como floriu. Não tardou até serem chamados os ausentes, três empresários e homens de negócio, para irem dar um saltinho ao hemiciclo e desengripar a ‘máquina’ do sistema. A proposta dos comunistas passou na especialidade mas foi ‘chumbada’ na generalidade. Uma genialidade de última hora para uns e um sinal de mudança na vida democrática para outros. Não fiquei deslumbrado. Creio que este pluralismo germinado por acidente é mais um tesourinho deprimente que se soma a outros no parlamento, pouco dado a estas coisas de pensar diferente.