"Conheço bem Gungunhana, esse intrujão! " Assim escreve Mouzinho de Albuquerque em carta enviada ao comissário régio António Ennes, quando em Dezembro de 1895 é nomeado Governador do distrito de Gaza, com plenos poderes para capturar Gungunhana, que há gerações perseguia quem ousasse desafiar o seu poder ou atravessar-se no seu caminho. Com frequência insultava a Coroa Portuguesa e conspirava sempre a favor de quem lhe desse mais dinheiro. Albuquerque sabia bem que a sua tropa estava mal equipada, que o reabastecimento era deficiente e que a relação numérica com o inimigo era de um para trinta. Sabia que perante tal desigualdade de forças, num confronto aberto e directo, seria sempre esmagado. Apenas uma jogada de antecipação, inesperada e de alto risco, poderia surpreender e derrotar o régulo sempre bem protegido por altas paliçadas e mais de 3000 guerreiros, que a cada momento lhe juravam fidelidade até à morte. No dia de Natal após o almoço, Albuquerque reúne as suas tropas e anuncia que chegara a hora de afrontar Gungunhana. Pediu então que quem sentisse coragem para o acompanhar, desse um passo em frente. Ninguém hesitou! Até os doentes com malária queriam embarcar na canhoneira Capelo e subir o Limpopo até à região dos Vátuas. Depois de uma marcha arrasadora que atravessou pântanos, ultrapassou perigosas escarpas, suportou dilúvios, aguentou um calor abrasador, enfrentou febres, fome e sede, finalmente descansaram. Exaustos, não tiveram muito tempo para se recomporem pois às 4 da madrugada do dia 28 levantaram tendas e rumaram a Chaimite. Três horas depois avistaram a cidade santa dos Vátuas, sobre a qual pairava a sombra de Gungunhana Manukuse, o régulo prepotente! Quando se aproximavam, caveiras e cadáveres humanos espalhados no mato, provocavam um intenso cheiro a carne podre. No dizer do médico Francisco Amaral, era assim a justiça de Gungunhana sobre os Vátuas que ousavam desafiar o seu poder. Albuquerque, acompanhado pelo jovem tenente Couto e pelo médico Amaral, entra na "cidade" ainda adormecida e faz prisioneiro Gungunhana no seu "Kraal" de Chaimite! Contam as crónicas, que de imediato terá havido manifestações de entusiasmo e regozijo por parte do povo Vátua, ao sentir que estava livre daquele tirano. Referem ainda, que quando Albuquerque já se retirava com os prisioneiros, um grupo de Vátuas favorecidos pelo poder do régulo, saiu em sua perseguição. Albuquerque mandou parar e esperar que eles se aproximassem. Ordenou-lhes então que deitassem os escudos e lanças no chão, no que foi de imediato obedecido. Que estranha força permitiu que 47 soldados exaustos e doentes, paralisassem 3000 guerreiros? Que coragem quase suicida terá levado aquele pequeno grupo a desafiar o poder de Gungunhana? Provavelmente Albuquerque sabia que ao desafiar olhos nos olhos Gungunhana, ganharia o respeito de muitos dos 3000 guerreiros que nunca tiveram a coragem de o fazer e que logo que tal acontecesse, as fidelidades compradas ou impostas pelo medo, rapidamente deixariam o régulo sozinho. A popularidade crescente e desalinhada de Albuquerque começou a incomodar o poder que então governava o Reino e que se serviu de uma imprensa corrupta e vendida para alimentar boatos abjectos, chegando mesmo a insinuar uma ligação entre ele e a rainha D. Amélia. A História desmentiu em absoluto, mas ficou o lado sujo da política rasteira. Há porém uma dúvida que a História nunca esclareceu: monárquico convicto, o seu pensamento era liberal ou absolutista? Acredito que Albuquerque ao decidir afrontar um régulo prepotente, só pode ser um monárquico liberal e tolerante, nunca um defensor do poder absoluto.

Manuel de Brito