A reforma curricular que está para entrar em vigor pretende supostamente melhorar o aproveitamento escolar. No entanto, o ministro não procurou minimamente avaliar e compreender as reais causas do insucesso e do abandono escolares. Em vez de atuar sobre os fatores sociais há muito identificados e estudados como responsáveis pelo insucesso e abandono escolares, pretende, tão-somente, reforçar a carga horária semanal de algumas disciplinas que considerou fundamentais (todas teóricas), como se o aumento da carga horária, por si só, fosse alterar alguma coisa. Como todos os professores sabem perfeitamente, as horas a mais destinadas aos apoios a alunos com dificuldades de aprendizagem, servem, sobretudo, para ajudar "bons alunos" a melhorar as suas notas. Para o Ministro Crato, sucesso escolar significa a aquisição de "muitos saberes", muitos conhecimentos descontextualizados de qualquer aplicação prática motivadora dos alunos. No programa Plano Inclinado o atual Ministro referia-se pejorativamente às competências dos alunos, como se estas fossem substitutos rascas dos conhecimentos. No meu entender, um ministro da Educação não pode, pura e simplesmente exibir tamanho desconhecimento sobre a matéria em questão. O sr. ministro não entendeu, ou não quis entender, que as competências se materializavam na resolução de problemas concretos, sejam eles de Matemática, Física, profissionais ou do dia-a-dia da vida cidadã. Para um indivíduo ser competente e resolver problemas tem de possuir os conhecimentos necessários (os mesmos que o sr. ministro quer aumentar), mas tem de juntar a esses conhecimentos os métodos e as técnicas necessários à sua operacionalização e ainda a motivação necessária para os resolver. Competente, sr. ministro, não é o que apenas possui saberes. Competente é o que soluciona os problemas, coisa que o sr. ministro não faz em matéria de Educação. Os conhecimentos são da maior importância, mas só por si, são insuficientes, não resolvem coisa nenhuma, no mundo real, fora da "torre de marfim" da 5 de outubro. A visão expressa nesta revisão curricular não é uma visão de vida na sua plenitude, mas apenas a visão de homem que nunca saiu da escola. No exercício profissional ou da cidadania, somos sistematicamente confrontados com problemas que temos de resolver. As empresas não precisam de indivíduos que saibam muito de Geografia, História e até Matemática, querem pessoas capazes de resolver problemas. Cabe à escola providenciar para que tal aconteça. As competências não se podem ensinar diretamente aos alunos. O papel do professor, no que se refere à sua aquisição, consiste no ensinar (para além dos conhecimentos) de um conjunto de métodos e técnicas, que vão desde os métodos de resolução de problemas, passando pelos 'brainstormings', até ao confronto direto com situações-problema a que os alunos teriam de responder. Os locais de excelência ao nível do ensino básico, no 3.º ciclo, para a realização destas aprendizagens eram a 'Área de Projeto' e a Educação Tecnológica, disciplina que recorre à ciência, às técnicas e aos métodos necessários congregados em forma de resposta tecnológica e transdisciplinar a problemas concretos das mais diversas áreas do conhecimento. Os sucessivos ministros têm da Educação uma perspetiva de legislatura, prosseguindo agendas economicistas e eleitorais. A disciplina de Educação Tecnológica, não é uma disciplina de 'papel e lápis', necessita de alguns equipamentos e materiais para poder cumprir cabalmente a sua missão, de formar cidadãos tecnologicamente competentes, consumidores responsáveis e reflexivos, motivando-os em simultâneo para a frequência do ensino profissional e para a vida ativa. O atual ministro, na senda estritamente financeira do governo a que pertence, resolveu, à revelia da sua própria proposta de revisão curricular, acabar pura e simplesmente, com a única disciplina transdisciplinar e de caráter prático existente no 3.º ciclo, que, com vários nomes e propósitos existe há mais de 50 anos no nosso ensino, de um dia para o outro e sem dar a mínima explicação a ninguém. Que pensam disto os Encarregados de Educação e os cidadãos em geral? O Sindicato dos Professores (SPM), como de costume, não pensa nada, porque como é uma questão que afeta professores, não é nada com ele.

Helder Melim