O primeiro-ministro argumentou esta semana que o Governo poderia dar uma "imagem precipitada" de Portugal se repusesse os subsídios de férias e de Natal no final de 2014.

E isto leva-nos logo à imagem que Pedro Passos Coelho não se importa de dar de Portugal e, sobretudo, à imagem que não se importa que os portugueses tenham de si mesmos e de quem os governa.

Uma imagem que corresponde à de um país a empobrecer a um ritmo acelerado, à de um povo lançado para o desemprego, à de uma economia à beira do abismo. Uma imagem que corresponde a um governo que acha tão natural como a sua sede (passo a publicidade) anunciar que o sistema de Segurança Social e o Sistema de Saúde não estão garantidos, como se tudo isto fosse normal, como se tudo isto fosse a sua única função. Este governo acha natural não garantir nada a não ser continuar a servir os lobbies que o servem e dos quais se serve.

O povo é algo de acessório para este primeiro-ministro, uma maçada, um pequeno problema que urge eliminar para que tudo seja perfeito. Para Pedro Passos Coelho, o povo que o elegeu é um pormenor, uma gentinha a quem tem de dar explicações de vez em quando, com aquele ar de enfado que coloca para demonstrar que o estão a chatear profundamente ao quererem saber se podem ter esperança.

O bom seria que emigrassem todos em massa, que deixassem de incomodar, que resolvessem a estatística do desemprego, da pobreza e todas as outras que prejudicam a sua imagem de bom aluno da troika. Pedro Passos Coelho quer ser o bem comportado da turma, mesmo que, para isso, tenha de brincar sozinho no recreio. Porque o que lhe interessa é a imagem que o espelho lhe devolve de si mesmo, uma imagem que não precisa de paisagem. O povo, para este primeiro ministro, é ruído no solilóquio que estabeleceu consigo próprio e no diálogo que, periodicamente, estabelece com quem realmente governa o país que o elegeu. Mas isso só vai perceber muito mais tarde, tarde demais.

Afinal, e como bem diz Freitas do Amaral, na sua 'História das Ideias Políticas', "o poder, quando não é exercido por que o detém, depressa passa a ser detido por quem o exerce".