Tenho estado noutro mundo. Tenho dedicado horas a tentar avistar, entre o arvoredo ou o capim, leão, búfalo, elefante, chita, cudo, pala-pala, inhala, impala ou qualquer outro animal selvagem no seu quotidiano. Agora - que voltei a ter água canalizada, luz eléctrica, ar condicionado e ligação à Internet -pareço saída de uma "clínica" de desintoxicação de política e economia doméstica. Estava difícil iniciar o "tratamento". Paulo Portas viajou, em classe executiva, no mesmo avião de uma linha aérea alemã. Cruzei-me com ele num hotel, de cinco estrelas, em Maputo. E ia-me cruzando com Pedro Passos Coelho e com a eterna transferência da barragem de Cahora Bassa. No mato, céu ou fogo a fazer as vezes de televisor. Nada de conversar sobre crise da dívida, memorando FMI/BCE/UE, desgoverno de Portugal, resignação ou desespero de quem o habita. Apenas o que a natureza permitia ver e, aqui, isso até pode querer dizer um par de leões a acasalar quatro vezes numa hora. O resto era a regeneração da vida selvagem, o desenvolvimento humano e o turismo sustentável no Parque Nacional da Gorongosa, no centro de Moçambique. Não é que nada disto tenha a ver com isso. Há cada vez mais portugueses a tentar instalar-se em Moçambique. No ano passado, apenas a China e a África do Sul investiram mais do que Portugal (107,5 milhões). O país está a crescer a bom ritmo. Tudo aponta para que tal continue a acontecer a uma média de 7,7 por cento até 2015. E Portugal tenta apanhar algumas ondas. Basta ver que as exportações para Moçambique subiram de 151 milhões de euros em 2010 para 218 milhões em 2011. Que não haja ilusões. O actual crescimento económico está muito assente em megaprojectos, como a extracção do gás natural. O custo de vida é tremendo. A pobreza agride, inclusive na Gorongosa, que desceu aos infernos durante a guerra civil e está a retomar o lugar de "paraíso africano". Só que Moçambique parece que deixou de ver uma parede de aço, parece que está a abrir caminhos. E, assim, de repente, parece-me que talvez seja preciso uma desintoxicação colectiva para Portugal se sentir capaz de fazer o mesmo.
Ana Cristina Pereira, Jornalista do Público