É um amontoado de carros nas pedras, testemunho insuficiente da nossa história. Os artistas! Esses 'inventadeiros' do contar. Mania. Se dá para contar, para que raio vão a palco abrir a boca, esbracejar de cócoras, mexer-se, abrir os ouvidos de alguém que abrirá a boca, se mexerá e não deixará os outros assinar por ele? Agarrados a inutilidades na esperança de engrandecer a vida? O poder tem de ter ouvido e este mês fui escutado. Naquele momento, desapareceu qualquer mal. "Pode dizer-se que somos infinitos. Não é possível haver tanta gente, sermos tantos e não termos esperança", disse uma mulher a propósito da situação no Irão. E eu para aqui irado com o dito em Bruxelas por Peter Weiss, "ficámos um pouco surpreendidos com a subida do desemprego [em Portugal] e ainda temos dificuldade em interpretar esses números". Todos nós percebemos que não perceba o que a gente percebe. Não se surpreenda com a nossa resistência passiva. Não fique atónito; o vulcão já rebentou e você não tem tempo para notar pois está um pouco ocupado a ficar "um pouco surpreendido". Aqui, sem caixinhas na mão, a gente não desiste de sonhar com baleias (ler O Amanhã de Mário por Raquel Gonçalves e João Silva) nem com teatro. Dizer ainda que estão em cena diferentes espectáculos a precisar de si como uma baleia necessita vir à tona. Só mais uma matiné de Schweyk. Apelo a seres, não a públicos (os urinóis, como nos lembrou Manuel de Oliveira). Se Deus é algo é também isto de sermos plateia explosiva. É aproveitar a vantagem da gravidade para deixar o carro (como os de cesto) descer. E a gasolina para a subida? Olha: sirva o restinho do depósito para o arder no aterro.

Élvio Camacho, Actor