Depois de analisar a realidade do jornalismo regional, olhemos, por fim, para as receitas geradas pelas vendas de jornais: pelo que é conhecido, o Jornal da Madeira vende a uma empresa a totalidade da sua tiragem, cobrando 10 cêntimos por cada exemplar. Essa empresa, eivada de um espírito verdadeiramente altruísta, resolve, depois, oferecer a totalidade dos exemplares. Em termos práticos, o Jornal da Madeira tem distribuição gratuita. Gosto e aprecio gestos altruístas, nomeadamente nestes tempos de crise que se vivem, mas gostaria, muito mais, de ver esta mesma "empresa altruísta" a pegar no dinheiro que utiliza para comprar o Jornal da Madeira e distribuí-lo por associações de solidariedade social, por centros de acolhimento de crianças, a dar de comer a quem tem fome, a dar bolsas de estudos a estudantes que estão a abandonar os estudos por não terem como pagar propinas etc, etc. Isto, sim, seria verdadeiro altruísmo. Porque comprar o Jornal da Madeira e distribui-lo gratuitamente, num acto de tamanha generosidade, mais parece, embora dentro da lei, uma forma encapotada de tentar acabar com a concorrência através do poder do dinheiro. Mas, nem tudo o que é legal, é ético e democrático. Eu, cidadã livre, não quero contribuir para que jornalistas sejam obrigados a negociar rescisões dos seus contratos de trabalho porque um órgão de comunicação, subsidiado pelo governo com o dinheiro dos contribuintes e apoiado por supostos mecenas generosos, está a destruir completamente as regras mais elementares do mercado concorrencial dos órgãos de comunicação regional, através de práticas a todos os títulos condenáveis, numa tentativa óbvia de estrangular financeiramente uma publicação de que não gosta. E, ao fim e ao cabo, tudo poderia ser bem mais simples. Porque um jornal bem feito, cria o seu público e vende. E, um jornal bem feito é aquele que sabe informar os seus leitores da maneira mais isenta possível, que sabe interpretar as preocupações das pessoas, que sabe estimular-lhes o espírito crítico, que sabe publicar opinião variada, que sabe respeitar o contraditório, que sabe defender os desafios da sua terra, que sabe ajudar a construir a Madeira do futuro. Esse jornal vende. E vende a preços de mercado, sem recorrer a subterfúgios de supostos mecenas generosos. E, vendendo , as tabelas de publicidade, que são construídas com base na circulação e no preço por contacto, não precisam de estar em saldos permanentes que ofendem quem os pratica. E, se assim fosse, não seriam precisos subsídios do governo, nem apoios de supostos mecenas generosos, ou sequer distribuições capciosas de publicidade oficial do governo ou das autarquias para manter artificialmente um jornal. Porque nem tudo o que é legal é ético ou democrático. Estamos a entrar em tempos novos, tempos de mudança, que obrigam também a uma mudança clara e inequívoca de atitude quando em causa estão dinheiros públicos e princípios democráticos.

Raquel Fraga, Historiadora de Arte