Há quem não tenha ainda dado por isso mas o Mundo de hoje não tem nada a ver com o Mundo de há 5 anos. Alguns ainda não deram por isso. Outros - o que é bem pior - fazem de conta que nada mudou. Na verdade o Mundo de hoje é muito diferente do passado recente. Também o futuro próximo será muito diferente daquilo que o Mundo é hoje. Aliás penso que o maior fenómeno da última década é a velocidade com que as coisas estão a acontecer. Uma velocidade estonteante. Aquilo que demorava uma geração a mudar agora muda num ano. É difícil acompanhar esta velocidade. Exemplos não faltam: quem diria que Portugal estaria falido e dependente de uma ajuda externa financeira para subsistir? Quem diria que um país europeu, como a Grécia, estaria não só falido como sem Estado e sem rumo? Quem diria que a Europa hoje é olhada como um continente em profunda crise? Quem diria que a China (comunista) seria hoje o auxílio preferencial ao Mundo capitalista? Pois é. Quem diria... mas é mesmo assim. Quem diria que regiões onde se vivia com boa qualidade de vida, emprego, bons apoios sociais, hoje estariam com taxas de desemprego descontroladas, sem dinheiro para pagar medicamentos e hospitais... Quem diria? Mas esta é a realidade. E repare-se: tudo aconteceu a uma velocidade estonteante. De um dia para o outro. Mas o Mundo, neste momento, é assim. O problema é que a classe dirigente europeia e a opinião pública, na sua maioria, não querem ver que o Mundo mudou. Não sei se para pior ou para melhor. Mas mudou. A Europa tem neste momento uma coligação político-partidária terrível: temos uma esquerda conservadora e uma direita anti-reformista. O pior que nos poderia acontecer. Com uma esquerda que insiste em manter o 'statu quo' (logo, ultraconservadora!) e uma direita que faz discursos mais ou menos reformistas mas que na hora da verdade não sai da zona de conforto do 'statu quo'. Pior é impossível. É assim que se encontra a Europa. Repare-se: a crise financeira da Europa como não foi combatida de forma clara passou a uma crise económica. Como a crise económica não foi enfrentada de uma forma clara e corajosa passou a crise social. Assim vamos. De crise em crise, sem qualquer solução. Enquanto isso, a China continua a crescer a 10% ao ano. Outros países asiáticos também. A América Latina também tem apresentado crescimentos sustentáveis e contínuos. Os Estados Unidos já estão a recuperar. Aliás o Mundo não está em crise. A crise é principalmente na Europa. O nosso continente tem de perceber que, se quer manter o seu modelo - que continua a ser o melhor modelo, apesar de tudo -, tem de mudar e rapidamente. Tem de se adaptar. Senão, por exemplo, o modelo chinês passará a ser o modelo do sucesso. Só que o modelo chinês não é o modelo da Democracia, da Liberdade, da Segurança Social. No entanto é o modelo que está a vingar no Mundo. É por isso que nós na Europa temos que nos adaptar. Não é ceder ao modelo chinês. Mas é, sem dúvida, nos adaptarmos à actualidade. Vejamos exemplos: é impressionante verificar as constantes greves nas companhias aéreas europeias. Ao mesmo tempo as companhias aéreas do Golfo e as orientais ganham mercado às europeias e criam novos mercados. A resposta europeia a esta concorrência feroz e rápida tem sido: greves! Que estratégia ruinosa. Ao mesmo tempo existem políticos europeus que julgam que a Europa poderá continuar a viver à sombra da sua história. Ninguém nos irá respeitar pelo poder do passado. Só nos continuarão a respeitar se mantivermos o nosso poder económico, militar e de influência diplomática. Para isso precisamos de crescimento económico. Para que esse crescimento exista temos de ser competitivos, em relação aos asiáticos e americanos. Para sermos competitivos temos de ter políticas fiscais competitivas. Para termos políticas fiscais competitivas temos de ter contas públicas rigorosas e sem défices. Afinal uma receita lógica e até relativamente fácil de aplicar. Mas para que existam estas políticas são necessários actores políticos. É exactamente isso que nos falta.
Paulo Neves