Como portuguesa orgulho-me imenso que o meu país seja promotor de um dos mais importantes eventos culturais da Europa em 2012, a "Capital Europeia da Cultura". Como portuguesa residente na Madeira, tenho pena de não beneficiar da sua programação porque o meu país não deixou. Não me deixou ser portuguesa pela falta de continuidade territorial. A Europa apoiou a Capital Europeia da Cultura Guimarães 2012 (CEC) através de contratos de financiamento comunitário por via do QREN (Quadro de Referência Estratégico Nacional) em aproximadamente 18 milhões de euros. Há mais uma cidade que também é Capital Europeia da Cultura em 2012, Maribor na Eslovénia. No final do ano e talvez no próximo, será interessante comparar os efeitos multiplicadores de cada uma das capitais da cultura na economia dos seus países e na competitividade de um sector considerado estratégico no novo quadro de programação 2014-2020. Acompanhar as conquistas de Guimarães é importante quando os teatros nacionais, as companhias de repertório e os criadores em geral carecem de investimento público. Acompanhar a programação de Guimarães é ainda mais importante quando um espaço emblemático como o Teatro Nacional São Carlos cancelou as óperas "Turandot", "Francesca da Rimini" e "Don Pasquale" e adiou a apresentação de "Madama Butterfly" devido à contingência da situação financeira e económica de Portugal. O financiamento da Capital Europeia da Cultura é feito maioritariamente através de fundos comunitários, linhas de crédito constituídas a partir de impostos pagos pelos cidadãos e empresas, não é dinheiro imaginário de um qualquer cofre em Bruxelas. Os impostos, em última instância, deveriam destinar-se ao investimento, motor da economia de um país, e esperamos sempre que o investimento realizado seja profícuo, independentemente do seu nome ser FEDER, INTERVIR+ ou QREN. Não há crises, apenas decisões difíceis. O São Carlos e outros Teatros Nacionais que o digam.

Natércia Xavier, Formadora