"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara". É deste modo que José Saramago inicia a viagem por um mundo de cegos, em que olhar com olhos de ver assume verdadeira importância na procura interior do ser humano contemporâneo em O Ensaio sobre a Cegueira. Uma cegueira branca ou o "mal-branco" que ocorre de maneira insólita é o mote que Saramago utiliza para (des)construir o mundo dito civilizado, desmascarando e tecendo críticas mordazes à sociedade do século XX, mas que ainda nos fazem refletir em pleno século XXI. A cegueira da luz-leite que ofusca, convoca a reunião de um grupo de personagens anónimas que representam uma sociedade em decadência: a mulher do oftalmologista, a única que não cega, portanto a estrela guia do grupo; o oftalmologista; o primeiro cego e a sua mulher, a rapariga dos óculos escuros, prostituta; o homem da venda preta; um ladrão, entre outras personagens que interagem direta ou indiretamente com este grupo errante. O Ensaio sobre a Cegueira, como texto enigmático, consciencializa-nos acerca da fragilidade humana, através da desumanização da humanidade, do horror cego e da ruína total da sociedade e das suas estruturas. Saramago, no papel de escritor interventivo, concede aos leitores a tarefa, a missão e o dever de repensarmos, refletirmos e criticarmos o Homem moderno que caiu cego nas amarras do narcisismo: "Cegos que vêem, Cegos que, vendo, não vêem". Saramago sugere-nos um cenário caótico e maníaco em que o Homem é levado ao extremo, para que nós leitores, na condição de Homens, busquemos a essência do pensamento verdadeiramente humanista. O Ensaio sobre a Cegueira constitui uma obra de reflexão conjunta, questionando e problematizando quezílias interiores do Homem. A perda da identidade, a indiferença, a ruindade do ser humano, o diálogo com a consciência, a cegueira como mal de espírito, a sobrevivência, o animalesco, o grotesco, o medo que cega; o egoísmo; a distopia e a desesperança são os temas centrais em o Ensaio sobre a Cegueira. "Já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos". O Homem já estava cego espiritualmente antes de cegar fisicamente. A cegueira física é, forçosamente, o aviso de consciencialização do Homem. Perdidos num "mar de leite", o grupo de cegos realiza uma peregrinação infernal ao de que pior existe na Humanidade. Vagueando sem direções ou referências, os cegos, excluídos em quarentena, experienciam a alheação extrema, mergulhados numa loucura luminosa que devora e consome o que ainda resta de humanidade e dignidade, numa treva branca que afoga os olhos da possibilidade de visão. "Se eu voltar a ter olhos, olharei verdadeiramente os olhos dos outros, como se estivesse a ver-lhes a alma". E nós? Cegámos?

Fernanda Castro, Colaboradora AAUMa