Eurocentrismo é um vício tremendo. No centro do furacão da actual crise económica por vezes esquecemo-nos de olhar para além do nosso umbigo e das nossas preocupações. Felizmente a diáspora portuguesa deixa-nos em contacto próximo com os quatro cantos do mundo, e questões relacionadas com a Venezuela, Brazil e África do Sul tocam-nos especialmente.

Desenrolou-se recentemente um processo disciplinar do ANC, partido no poder na África do Sul, contra Julius Malema, o líder do seu movimento juvenil. Este jovem de 30 anos é possuidor de um extenso rol de polémicas, coleccionando controvérsias com uma inclinação pelo populismo demagógico. Na semana passada o ANC decidiu expulsar Malema do partido.

A cúpula do ANC decidiu que o limite do tolerável já tinha sido transgredido. Mas o que efetivamente constitui os componentes de um limite desta natureza política?

Julius Malema entrou para o seu partido com 14 anos, estabelecendo contactos partidários e subindo rapidamente nas hierarquias, para aos 27 anos ser eleito presidente do ANCYL, juventude partidária do ANC. Sem formação profissional ou académica e com um estilo de vida bastante opulento num país crescentemente marcado pela pobreza, Malema rapidamente ganhou notoriedade através da forma pouco ponderada que opinava sobre as mais variadas temáticas, defendendo inclusivamente a nacionalização das minas sul-africanas. Com um discurso marcado pela incitação à violência contra a população branca, insultou e ameaçou diversos jornalistas sul-africanos e inclusivamente da BBC. Chegou até a comprometer a política externa da África do Sul ao visitar o Zimbabué e louvar veementemente a política de Robert Mugabe numa altura em que decorriam negociações delicadas entre estes dois países.

O presidente da África do Sul Jacob Zuma tinha outrora classificado o jovem Malema como um futuro líder do seu país, para agora, à luz de tanta evidência de explosividade política negativa, se distanciar fortemente dele. Quando Julius Malema se tornou líder da juventude do ANC, afirmou emotivamente que “matava” por Jacob Zuma – agora, com as cartas na mesa do processo disciplinar, rapidamente mudou de convicção: a política realmente é um negócio inconstante.

A estupidez é uma perigosa arma quando usada por um político pois anestesia a população através do riso que provoca. Em vez de agir e criticar, o eleitorado limita-se a satirizar e indirectamente validar essa actividade política tão nociva ao bem comum através da não-acção, permitindo assim o lento fortalecer desse agente político, dia após dia.

Só o tempo dirá se o controlo de danos do ANC foi eficaz neste capítulo. Infelizmente em demasiados pontos espalhados pelo mundo, são os falhanços dos mecanismos de controle democrático que ditam o crescimento de autênticos Frankensteins partidários. Criaturas para quem a política se faz pelo ruído, pela confusão e pela intriga. Quando ela deveria ser feita na procura da racionalidade, da inovação e do melhoramento da sociedade.

Rubina Berardo