Assisti, com expectativa, ao último filme interpretado pela magistral Meryl Streep, em que desempenha o papel de Margaret Thatcher, ex-primeira-ministra britânica. Uma mulher poderosa que enfrentou um mundo dominado por homens, num tempo em que ainda cabia à mulher o primordial e sacramental papel da educação dos filhos, a submissão ao marido e a lida da casa. A atriz encarna uma política decidida e corajosa que avança sobre o que considera ser o melhor para o seu país, a braços, na década de 80, com ações terroristas internas e uma grave recessão económica. A Thatcher que nos surge é também uma mulher fragilizada pela doença (sofre de Alzheimer), marcada pelas lembranças constantes do marido falecido e dos dois filhos gémeos (um deles residente na África do Sul). Para o bem e para o mal, a dimensão humana desta marcante política sensibiliza-nos para o papel determinante que a mulher tem na sociedade e a dificuldade de ascender num campo onde o homem continua a dar cartas. Daqui a quatro dias celebra-se o Dia Internacional da Mulher. É uma data cada vez mais simbólica, sem a importância dos tempos em que o elemento feminino vivia subjugado ao interesse do homem e a ele obedecia, quase reverencialmente. Ou se regredirmos mais no tempo, não votava e não tinha direitos sobre si própria. Tudo mudou ao nível dos direitos das mulheres. E, no plano teórico, ninguém os questiona. Ela surge-nos ao longo da História como elemento determinante no curso de países e nações, de estados e governos, devido à sua capacidade de resistência singular e resiliência. Basta fazer um breve exercício de memória para identificar mulheres que lideram os destinos dos seus países ou ocupam posições de charneira na política internacional: Angela Merkel, na Alemanha, Hillary Clinton, nos Estados Unidos, Dilma Roussef, no Brasil. Só para dar exemplos mais flagrantes. Umas optam exclusivamente por uma carreira, outras ousam conjugar a vida pessoal e profissional. São determinadas e lutam pelos seus ideais até ao fim, fazem sacrifícios pelos filhos e, em última análise, prejudicam-se por eles. As mulheres da Madeira, porque não afirmá-lo, são ainda mais especiais, porque a insularidade assim o determinou. Contra ventos e marés lutaram, durante séculos, por uma vida melhor, muitas vezes contra a vontade absoluta do "chefe da família". Muitas fizeram das tripas coração para lançarem os filhos num patamar inimaginável para o tempo em que nasceram. Numa época em que apenas uma pequena elite madeirense viajava de avião, muitas mergulharam numa épica aventura para os porem no mundo do sucesso profissional, que só uma universidade do continente garantia. Vêm-me à memória uma série de nomes de mulheres que são ainda exemplos ativos na busca de uma sociedade melhor, mais limpa e esclarecida. Ainda não conquistaram o mesmo plano de oportunidades que o homem, apesar de serem em maior número e de terem as mesmas ou melhores qualificações académicas. As menos jovens tiveram o dobro do trabalho para se imporem numa sociedade insular dominada por dogmas da Igreja Católica, muitas vezes deturpados em favor do querer masculino. A quatro dias da data escolhida para homenagear o outrora chamado «sexo fraco», quero deixar uma palavra singela a todas as mulheres, quais damas de ferro, a pretexto de um filme interpretado por uma atriz de mão cheia, facto justamente reconhecido pela Academia de Hollywood. Que todas tenham vontade de inverter, com a sua ação, as resistências que ainda subsistem e que impliquem retrocesso social, político e cultural. Peço desde já desculpa, mas tenho de destacar uma, que continua a merecer toda a minha atenção e aplauso. Pelo que foi, continua a ser e será: determinada, perspicaz, lutadora, sem deixar de ser afetuosa. Parabéns Mãe. Artigo escrito de acordo com a nova grafia.
Roberto Ferreira