De mãos trémulas, colocavas as rodas na minha primeira bicicleta. Aquelas rodas que amparam a queda e ensinam os primeiros caminhos pedalados à cautela e de coração assustado.

Era cor-de-rosa, tinha fitas coloridas e, apesar das rodas de segurança, ainda sentia a tua mão no banco, enquanto eu ensaiava o ritmo certo de um equilíbrio.

É ainda a tua mão que lembro a caminho da escola, a ensinar-me a atravessar as ruas, a dirigir o olhar atento para os dois lados da estrada, para todos os carros reais e possíveis. É do teu orgulho de levar a minha primeira pasta com os livros que cresço ainda sem o saber.

Aos sábados, tinhas um assobio só teu que nos fazia correr ao teu encontro. Dentro de uma caixa, um sortido de bolos e creme que misturavam sabores. Ficavas assim, sentado, a olhar para nós em alegrias de açúcar. Gostavas de nós assim: pequenos, felizes, incertos ainda, a desenhar o futuro.

Davas nomes aos patos no lago do Monte só para nos divertir. Davas nomes aos patos iguais aos políticos da televisão. E nós ríamos, sem sabermos o alcance da crítica, mas felizes pela tua mão.

Querias que acreditássemos no Pai Natal e nós fingimos que sim muito tempo depois da verdade. Era bom sentir que te levantavas para colocar as prendas no sapatinho, a acreditar no nosso sono e no nosso sonho.

Foi ainda pela tua mão que descobri a poesia. Tinha música dentro e as palavras de Ary dos Santos, o poeta do povo.

Depois, olha, acho que crescemos. Era inevitável. A tua mão na minha bicicleta, na minha pasta da escola, nas prendas de Natal, no gira-discos foi deixando de existir, naturalmente como quem aprende a andar.

Hoje, contudo, queria que soubesses que, às vezes, ainda me falham os passos sem ti. É a falta da tua mão e das duas rodas de segurança que, um dia, colocaste na minha primeira bicicleta cor-de-rosa.