Tive uma semana a ouvir histórias loucas. Na segunda-feira, numa conversa ao telemóvel, um amigo de longa data queixava-se de que andava com a cabeça em água porque não sabia como haveria de pedir de volta o dinheiro que emprestara ao primo já lá iam uns seis meses. Não que o valor fosse por aí além, eram 100 euros, mas precisava dele para poder completar os 660 que vinha amealhando para a compra da secretária que lhe faltava para acabar de mobilar o apartamento adquirido há três anos. Estranhei a atitude do primo, ainda mais porque o sabia bem empregado e com vida farta. Por isso, sem delongas, instei o meu interlocutor a pedir o que lhe era devido, tranquilizando-o. O primo, certamente, ter-se-ia esquecido e não levaria a mal a chamada de atenção. Afinal, o empréstimo fora a curto prazo ¬– uma semana – e já se tinham passado seis meses… Achas? perguntou-me ele. Acho, respondi eu. E mudámos de assunto. A curiosidade, no entanto, levou-me ao assunto dias depois. O primo não pagara nem queria pagar. A crise, justificara ele.
Na quarta à tarde, outra conversa, outro interlocutor, desta feita a amiga de uma amiga. A uma semana de concluir contrato, ficara a saber que não lho iam renovar. Indicaram-lhe outro trabalho, mais duro e com horário rotativo. Não aceitou. Ficava sem hipótese de ir ao ginásio e o ordenado era mais baixo do que o atual. Não podia perder a diferença, 20 euros. Porquê? interrompi. A crise, justificara ela.
E como não há duas sem três, ontem dei com a minha vizinha, a dona Maria, perdida em pensamentos. Ar pesado, face fechada. Setenta anos de trabalho. A pensão mal lhe chega para as sopas. Optou por arrendar a casa herdada da mãe. Remedeia-se, entretanto, num quarto da casa do vizinho. Paga a renda sem falhar. Ela é que não recebe a dela. Há três meses que o inquilino, homem habituado à boa vida, se faz de desentendido. Evita-a. A boa mulher julgara-o sem dinheiro, no desemprego talvez, mas enganara-se. Continuava a trabalhar e até houve quem o visse de mota nova. Ponha-o a andar, aconselhei eu. Ele diz que vai pagar quando puder, contrapôs ela. E porquê não agora? A crise, justificara.
E assim, de história em história, pus-me a pensar que a falta de vergonha tem agora um novo nome em Portugal – crise. É isso mesmo, crise. Ela é a desculpa fácil. Ela iliba tudo: a deslealdade, a aldrabice, a irresponsabilidade, a mentira, a calaça… Ela é a mãe de todas as coisas. Serve de pretexto a tudo. Aflora a boca de qualquer um, seja governante, dirigente, empresário, empregado ou zé ninguém. Até nos bancos da escola os miúdos já a invocam como desculpa para não fazer os TPC’s… E o pior é que, quando nomeada, cala as plateias. Anestesia-as, deixando-as numa espécie de torpor que silencia a indignação e permite a uma nova casta de cínicos arrumar a casa em proveito próprio.
À conta da crise, muito se faz impunemente neste país. Quebram-se compromissos, pregam-se calotes, dispensam-se trabalhadores, aumentam-se preços e, sobretudo, engana-se muito boa gente. Aldraba-se sem dó nem piedade. A crise existe, é claro, mas como tudo na vida já gerou uma corja que sabe como potenciar o que ela representa e o facto de todo o país, de lés a lés, tomar como certos os seus infaustos efeitos.
Eu, por mim, sou da velha guarda. Só vou até aonde posso ir. Talvez por isso não acredito que a crise seja a responsável pelas loucuras que se veem por aí. Acusem-me de insensível, de falar de cor, do que quiserem. Mas, cá entre nós, tenho para mim que, mais do que a crise, os maus hábitos é que nos andam a tramar. Habituámo-nos a padrões de vida que, se calhar, não podemos manter e agora é o que é. Muitos estão ainda em fase de negação. Recusam-se a aceitar o óbvio, julgando que o momento requer apenas uma boa gestão. Nada mais. Estrebucham. Não querem abdicar do outrora e não olham a meios para atingir fins. E tudo à conta da crise que para nós, madeirenses, começa, de facto, depois de amanhã, 1 de abril, ironicamente dia das petas que de peta apenas poderá ter a ingénua suposição de que algum dia as coisas voltarão a ser o que eram.
Eker Sommer