
Estive a rever, procurando dar o benefício da dúvida ao infractor, as imagens dos confrontos entre os manifestantes do Chiado e o corpo de intervenção da Polícia de Segurança Pública e não encontro razão para aquele uso desproporcionado da força, daquela desmedida carga de ira policial que atingiu, qual arrastão de Carcavelos, os repórteres fotográficos da Lusa e da France Presse que faziam a cobertura do acontecimento.
“Qualquer manifestante pode dizer que é jornalista”, justificou a quente, um porta-voz do Comando de Lisboa. Ora, se as chefias da PSP consideram que os seus agentes são incapazes de reconhecer que um indivíduo encolhido na calçada - a esvair-se em sangue, vergado pelo bastão, sem oferecer resistência, usando uma máquina fotográfica como escudo, sem ostentar cartazes nem tarjas, a gritar vezes sem conta que é jornalista, em rendição absoluta para com polícias que mais pareciam possuídos (não havia por ali perto alguma força de segurança mais racional que lhes serenasse os ânimos?) - poderia ao menos ser um potencial repórter fotográfico em serviço, perante esta presunção de inocência de agentes cegos, mudos e surdos, que confundem autoridade com autoritarismo, é caso para questionar: o que não fará a polícia a um indivíduo indiciado da prática de um qualquer crime que seja‘caçado’ na rua ou detido para interrogatório numa esquadra, longe das objectivas?
Há uns tipos na PSP, poucos felizmente, com um índide de inteligência tão limitado e demarcado, que acreditam que o mérito e a produtividade são alcançados não por via da capacidade em garantir a legalidade democrática e a segurança das pessoas (essas futilidades, diriam), mas pelo número de bastonadas que descarregam sobre o lombo de terceiros ou de autuações que levantam no final do turno. A origem deste mal não está no agente que executa mas no oficial que ordena a partir da sua zona de conforto. São as chefias do topo da hierarquia, fiéis mandatários do governo, que fomentam esse comportamento, camuflando as irregularidades e valorizando o quantitativo (através das notas de avaliação, determinantes para a progressão das carreiras) em detrimento do qualitativo da acção policial, que deveria estar mais ao serviço das pessoas e menos refém dos interesses, das prioridades e das agendas políticas de quem governa.
Dizer que há bastonadas e correctivos na PSP é quase um insulto, apesar de verdade. Não! Por favor, isso são resquícios do tempo do fascismo, dirão. Na PSP moderna, aquilo que vimos nas imagens e fotografias sobre o que se passou na última quinta-feira no Chiado, são apenas "incidentes táctico-policiais". ITP's para os amigos, que acontencem volta e meia na sequência de “necessárias e adequadas medidas correctivas e preventivas adequadas às circunstâncias” ou “do emprego da força estritamente necessária e na medida exigida para o cumprimento do dever policial”, nomeadamente para corrigir jornalistas teimosos que usam e abusam de ‘posições priviligeadas’ em espaços 'interditos' com barreiras invisíveis na via pública e decidem se intrometer nas 'trincheiras policiais' onde são distribuídas bastonadas a manifestantes que deviam estar em casa ou a trabalhar. Querem apanhar em flagrante verdades inconvenientes? Ora tomem lá que essa matéria é de exclusiva competência investigatória da PSP.