Existem notícias que nos fazem rir e outras que nos fazem chorar. Depois existem aquelas que nos deixam boquiabertos. Esta última foi a minha reacção quando li que as escolas de Vitória da Conquista, na Bahia, Brasil, vão passar a ter «uniformes inteligentes» para controlar a assiduidade dos alunos, abrangendo uma rede escolar de 43 mil alunos entre os 6 e 14 anos.
Estes uniformes são apelidados de «inteligentes» pois trazem um chip instalado no escudo da escola ou na manga da camisa e serão identificados por sensores instalados na entrada das escolas. Imediatamente, o sistema da escola e os telemóveis registados pelos pais receberão uma mensagem, comunicando a chegada ou saída do aluno da instituição.
Mas será que esta política educativa é assim tão «inteligente»? Esta notícia faz lembrar a eterna máxima de Lenine «Confiança é bom, controlo é melhor» e levanta uma importante questão: qual o valor que o cidadão atribui à liberdade e ao direito à privacidade? Cedemos informações no Facebook de livre e espontânea vontade, partilhamos por toda a Internet fotografias pessoais da família (ignorando o princípio de Cloud Computing) e achamos normal a georreferenciação automática de todos os nossos passos.
À primeira vista podem parecer banalidades, mas muitas concessões pequenas formam uma grande renúncia à liberdade. Será que ao penhorar a liberdade dos nossos filhos em nome da segurança não estaremos a desonrar o legado democrático dos nossos antepassados que tanto suaram e sangraram para hoje podermos viver em maior liberdade? Afinal, ao começar a habituar a população a fazer estas cedências no seu quotidiano, facilita-se caminho para quem procura a erosão completa da democracia no futuro.
No caso dos «uniformes inteligentes» no Brasil, existe ainda uma outra preocupação: ensina-se assim às crianças que o valor da palavra e da verdade é insignificante perante a possibilidade tecnológica de controlo total. Em vez de transmitir que a melhor aprendizagem é feita por via do erro, este sistema propaga uma ideia corrosiva: que mais importante que o indivíduo é o chip que ele transporta, enquanto parte de uma maquinaria bem oleada por dirigentes «iluminados».
Coriolano Moraes, responsável municipal pela Educação de Vitória da Conquista, afirmou que o sistema dos «uniformes inteligentes» intensifica o controlo sobre os alunos, «evitando que eles fiquem nas ruas». Pena que o respeito pelo princípio da liberdade individual também fique pelo caminho.
Rubina Berardo