"[uma casa] Perde-se o corpo na inabitada casa das palavras, nas suas caves, nos seus infindáveis corredores; pudesse ele, o corpo, o que quer que o corpo seja, na ausência das palavras calar-se. (...) O azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás (...) sem uma casa guardando-te do mundo" (Manuel António Pina, "Como se desenha uma casa", de 2011). Vem vestido de azul escuro. O céu acende a tarde clara. Dentro de um saco de pano (como sempre transporta cadernos, canetas, silêncio) há um livro que abre. Sob letras onde se inscreve o seu nome e as coordenadas da ilha, com a largura de duas páginas, está uma fotografia de nuvens da sua paisagem. Ténues, quase transparentes. A azul claro. Paulo David conta-me como neste livro - que dá a ver a exposição "Global Ends - towards the beginning", realizada no Japão - cada capítulo dedicado aos sete arquitectos que a integraram é iniciado por imagens de nuvens de cada um dos artífices dos lugares. "São um toldo. E não se podem tocar", diz. Emudeci: " o azul é uma refracção na boca, nunca o tocarás (...) sem uma casa guardando-te do mundo" (Manuel António Pina, no livro "Como se desenha uma casa", de 2011). Da boca deste arquitecto se ilumina o sentido de palavras que tinha lido nessa mesma tarde: o mundo é "uma casa", senti; o céu um toldo, o tecto. Como nuvens, o mundo muda. Como habitar o que se não toca? Como demorar no que muda? (silencio a inquietação). Calada, lembro linhas desenhadas por estas mãos noutro lugar: um quadrado azul forte, subaquático, em fundo; uma pirâmide íngreme desenhada e, a atravessar lhe o topo (mínimo), a linha de água. No alto da página, manuscrita, a palavra "ilha". Sobra fundo, muito fundo, sob o oceano. Há alguns dias, no II Festival Literário da Madeira, Valter Hugo Mãe disse como "o Paulo David foi falar com os vulcões". Sim, Valter, conhece-os a partir de dentro, desde o fundo do mar, do centro da terra (e tu ensinaste-me a ler o desenho feito sobre aquele azul subaquático). Tu sabes e sentes como o arquitecto "pensa como as pedras e tem coração de pássaro porque sabe pôr os edifícios a levitar". Estas são mãos que assim desenham lugares porque ouvem e falam ao centro da terra, o olhar e as linhas a arderem como vulcão. O coração é leve como ave como leves as nuvens que se não tocam. A casa "a levitar" é erguida sobre a linha de água porque no arquitecto mora a ideia de um céu-tecto, de nuvens-toldo. Tu, Valter, intuis este "acordo honesto para continuar a criação"; sabes como demora "milhões de anos de inteligência" a falar aos vulcões, a ampliar-lhes a "presença de uma vida interior que já se pressentia [na pedra]" "A arquitectura de Paulo David. Um arquipélago de ideias" (texto de Gonçalo Byrne publicado na Revista Internacional de Arquitectura "2G" n. 47, de 2008). Na página do livro toco as nuvens que neste instante não existem. Do desenho sigo com os dedos as leves linhas da ilha, das casas. Pressinto um "intenso sentido táctil (...) onde a arquitectura se torna corpo" (Gonçalo Byrne). Sim, Valter, "as casas são umas roupas muito largas para vestirmos, como se fossem para caberem os nossos corpos e o tamanho indefinido das almas". Sabes?, um outro arquitecto contigo conversou; contigo sabe que - por entre o silêncio, a sombra e a luz de cada coisa que Paulo David concebe - "dos ossos à pele, tudo amplia a experiência sensorial, frequentemente silenciosa, algumas vezes (...) expectante, inquietante, aberta ao projecto da própria vida" (Gonçalo Byrne). Tu sabes, Valter, que "vestimos as casas com tudo quanto somos". Só assim não nos perdemos "na inabitada casa das palavras". Há "uma casa guardando-te do mundo" (Manuel António Pina). Há o regresso a casa ao corpo do mundo.

Diana Pimentel