O título rima, mas o sentido profundo a que se refere rima melhor pela possibilidade que encerra. Numa terra onde, apesar das evidências, ainda se pretende dar a ilusão de que tudo está certo e onde os mesmos de sempre persistem em agir como donos da verdade, a democracia efectiva, que não apenas a exercida nas urnas, seria um bálsamo e o caminho de uma maioridade urgente e necessária.

Num momento em que ficam a nu as falhas e os pecados de uma gestão política que, apesar de ainda elogiada pelos seus autores, dá claros sinais de ineficácia profunda, urge que se acabem com falsos unanimismos e cobardes silêncios, quase sempre alicerçados numa estratégia de manter o poder e as benesses a todo o custo, mesmo quando esse custo implica algo de tão importante como a dignidade e a liberdade de pensamento e de acção.

Nesta lógica, o anúncio de que a equipa de Miguel Albuquerque vai avançar com uma candidatura independente, em resposta à escolha de Sérgio Marques para liderar a candidatura do PSD/M à Câmara do Funchal, não só representa aquilo que deveria ser natural em democracia, mas também algo raro num panorama político há muito tolhido pela vontade e pela voz única de um líder e de tantas outras forças ocultas que, até agora, geriram o xadrez político com a eficácia de uma máquina trituradora, separando o trigo do joio, apaniguados de rebeldes, verticalidade de subjugação cega e silenciosa.

A candidatura liderada por Bruno Pereira é um saudável sinal de democracia e de maioridade, de livre pensamento e escolha. Mas é, sobretudo, uma resposta certa e racional à lista oficial que poderia ser legítima não fosse soar a mais uma estratégia de castigo à liberdade dos poucos que se atreveram a pensar pela própria cabeça e a dizê-lo em voz alta quando acharam ser necessário e legítimo.

Por isso, sabe tão bem ver que ainda há gente que não se verga, que não prescinde de pensar, que não se acomoda ao conforto protector do regime. Independentemente dos resultados eleitorais, ganha já a democracia, num movimento tão raro na ilha do pensamento único e da única voz.