1 - “Bom dia. Se for da sua vontade, traga-me um pacote de bolacha com creme branco”. O pedido, em jeito de esmola dissimulada, foi feito domingo passado, à porta de um supermercado do Funchal, por um homem que aparentava ter mais de sessenta anos. Barba por fazer, casaco de inverno e boné posto. Sem ar de pedinte, mas com rosto fechado. Triste. Um velho claramente novo na arte da mão estendida.

Encontrei o “pacote de bolacha com creme branco” e dei-o ao homem que me esperava à saída do supermercado. Agradeceu-me e dirigiu-se a um café nas imediações onde o encontrei, pouco depois, a colocar o pacote de bolacha num dos dois sacos de supermercado que tinha atrás da porta. Fiquei na dúvida se o homem estava a pedir ajuda ou a fazer compras com o dinheiro dos outros. Mas não tive dúvida nenhuma de que se trata de mais uma vítima dos tempos que correm. Quando devia estar a gozar a reforma com os netos, está a pedir “um pacote de bolacha com creme branco”. Possivelmente para os netos. Decididamente, este reformado não goza a reforma. Quando muito é gozado por um sistema que terá ajudado a construir, ou não, mas do qual não pode fugir sem se aproximar das pessoas com aquela frase: “Se for da sua vontade...”. Imagino-o a repetir vezes sem conta estas palavras mudando apenas o conteúdo das embalagens. Em vez das bolachas, um quilo de massa de cotovelo, uma lata de salsichas, um pacote de leite, um litro de azeite. “Se for da sua vontade”.

2 - O presidente do Governo Regional não teve agenda pública esta semana. Nem é forçoso que a tenha. O chefe do Executivo pode, simplesmente, reservar para si uns dias para estudar dossiers, tomar decisões importantes, aconselhar-se, preparar-se, fazer o que quiser e entender. O que não pode é dar-se ao luxo de se esconder sem dar cavaco a ninguém. Se é legal? Claro que é! Se é normal? Claro que é, por que se passa na Madeira, uma terra onde é tudo normal. Mas é absolutamente imoral que um presidente, que é dos poucos portugueses que acumula ordenado com a reforma (o que na Madeira também é legal) se permita a estas frequentes escapadinhas, cá dentro ou lá fora. Depois de uma semana em que praticamente só esteve por breves momentos na Assembleia regional, o chefe do Governo sai de cena, regressa no fim-de-semana para um congresso em Lisboa, volta a ter agenda durante mais uma semana e, ao que tudo indica, entra no seu habitual período de gozo de férias da Páscoa no Porto Santo. Que fazer? Nada! Se pensarmos bem, o presidente é que deve estar certo porque, com excepção de algumas críticas anónimas ou à boca pequena, ninguém deu por nada. Nem um dos partidos da Oposição se manifestou por mais esta ausência que quase passou como água na ribeira. Quase.