De vez em quando recordo-me daquela aula. Do professor a questionar-nos já a meio curso de jornalismo porque é que tínhamos feito essa opção académica. E entre o bocejo e o ar de “qual o sentido desta pergunta nesta altura do campeonato?”, lá fomos respondendo banalidades. Que gostávamos muito de comunicar, que adorávamos escrever, que a notícia e a informação eram uma paixão de infância, que não nos imaginávamos noutro curso.
Ele olhava-nos impávido e descrente no que ouvia. E nós sem percebermos o sentido daquilo. Era uma aula de Ética e Deontologia. Até que disse: “Mentira, escolheram esta formação e querem ser jornalistas porque querem mudar o Mundo”.
E tinha razão. Era mesmo isto. Mas os três anos de vida adulta universitária já nos tinham feito esquecer essa demanda quase infantil que está subjacente (ou deve estar) em qualquer processo de escolha de uma profissão.
Já sabíamos nesta fase que não íamos mudar o Mundo. Quando muito iríamos dar o nosso contributo para as estatísticas. Ou entrávamos, com sorte, no núcleo dos empregados ou engrossaríamos, o já na altura extenso, mundo dos desempregados jovens. Ou teríamos capacidade para sair da asa paternal, ou iríamos para o lote dos que não saem de casa antes dos 30.
Foi bom que nos lembrassem que o nosso objectivo primeiro deveria ser mudar o Mundo. Que nos recordassem, naquele momento preciso da descrença colectiva, que podíamos, e mais do que isso devíamos, deixar uma pegada positiva na nossa passagem pela terra. E isto não foi uma aula para jornalistas, foi uma aula para os cidadãos.
A verdade é que à medida que crescemos, perdemos a nossa capacidade de acreditar. Esquecemo-nos do sonho de fazer melhor. Porque ficamos formatados às contas por pagar, aos horários, aos compromissos, à correria.
E pensamos que isso de mudar o Mundo é para os sonhadores. Os que deixam tudo para serem voluntários nos sítios mais recônditos, os que não têm os nossos compromissos. É nesta altura que deixamos de ver o que nos rodeia, que nos desumanizamos. Que ignoramos os maus tratos na casa alheia (‘eles que se entendam’), que nos esquecemos que temos uma velhinha a viver sozinha no nosso prédio e de lhe perguntar se ela precisa de alguma coisa e fechamos os olhos.
Podemos de facto não conseguir mudar o Mundo, mas será mesmo que não está ao nosso alcance fazer melhor do que fazemos? É que o Mundo está aqui ao lado.