Há uns anos, por este dia, fui ler um livro e explicá-lo à turma que partilha letras, números, sonhos e dramas com minha filha. Fiz-me à hora do conto sem a expectativa de cativar aquela plateia desconcertante, embora sempre disponível para se deixar embalar no inevitável imaginário e na saudável descoberta que, afinal, a ‘moral da história’ faz sentido.
O livro não falava dos rituais comerciais que instituem dias e noites, nem dos presentes que se trocam para compensar desleixos, nem dos desejos imateriais adiados à custa da falta de tempo, nem da amizade que faz falta ao mundo apressado, nem do amor que não espera sob pena de perder a vez ou de não se fazer notar em ambientes hostis. Mas apelava à necessidade de haver gestos essenciais na vida em sociedade, como, por exemplo, não mentir.
As crianças riram-se, como que a recordar o dia do brinquedo dos tempos de creche. Mesmo assim fizeram questão de dar uma “recordação”, um marcador para usar noutros livros. Nisto, um dos mais atentos dos irrequietos calou-me. Desviou-se do conteúdo contado. Ou talvez não. Sem licença, puxa-me pelo braço e surpreende-me. “Gostava de ter um pai como tu”, segredou-me. A franqueza servida com um brilho nos olhos mexe com todas as certezas. Percebi que o ultimato não derivava de uma hora de conto, que o progenitor de tão sincero filho não passava disso mesmo.
Já era pai atento às palavras sábias escritas e ditas desde tenra idade pelos meus filhos, uma espécie de valor acrescentado que suaviza o peso do dia e encoraja na batalha desigual. Mas naquele dia de um Março não muito longínquo entendi a urgência dos apelos inocentes, tentando evitar que fossem repetidos de forma assídua sempre que as crianças se juntam para ouvir histórias.
Os nossos filhos gostam de ter o pai que idealizaram. Na prática, “um pai como tu” é aquele que faz falta em cada instante. É o que ama sem limites, partilha valores, explica os porquês e dá todo o tempo para o eterno “outra vez” das brincadeiras e dos trabalhos de casa. É o que se faz filho mais vezes do que manda a tradição e bons costumes, permite a irreverência e aplaude a criatividade. É o que está sempre pronto para acarinhar os gestos puros, mesmo os mais inesperados, os que provocam a emenda ou a felicidade, que a Inês ainda ontem resumiu a uma certeza, de que “apesar de trabalhares dia e noite, gosto de ti meu herói” ou que o João Ricardo embandeirou no grito de “bem jogado, pai!”, após uma das minhas poucas pancadas certeiras nas duas horas de ténis que juntou pais e filhos em jogos de pares no CTF.
Nada mais que possa contar ou escrever irá surpreender quem só precisa do essencial. É a sorte de quem sente ou então leu William Shakespeare: “Sem um filho te apagarás no poente”.