Quem nos governa e nos trouxe a esta espécie de limbo que ameaça transformar-se em inferno, resolveu explicar nos adros das igrejas o que nos espera e o que pretende fazer.

Assim, visto do adro, este peditório até tem a sua razão de ser. A democracia também é isto e passa, necessariamente, pelo diálogo entre eleitos e eleitores.

No entanto, nesta dialéctica há um erro de base que me parece relevante. A procissão não passa do adro e a oração fica pela metade. Não se faz o devido acto de contrição, e o pecador não só não está arrependido, como continua a achar que não tem culpa, nem falhas, nem omissões.

O pecador está ainda convencido dos seus dogmas, que enrola em parábolas e imprime no seu catecismo pago pelo erário público a 11 mil euros por dia.

São todas estas variáveis que tornam a ida ao adro desnecessária e ineficaz. Os pecados em causa exigem um maior esforço de redenção, um 'mea culpa' mais convicto, uma penitência mais sincera e uma oração menos vazia de conteúdo e convicção.

Os nossos governantes precisam de fazer o caminho entre o adro e o confessionário, deixar a zona de conforto, admitir as falhas e as omissões. Afinal, o lugar a que condenaram o povo não se situa nesse adro confortável de sombras e raios de sol. Será, por isso, preciso muito mais do que um exercício de pura retórica para explicar bem as coisas aos que ficaram e vão ficar sem trabalho, aos que entregam e vão ter de entregar a casa ao banco, aos que, ainda assim, vão ter de pagar a alimentação dos filhos nas escolas, aos que vão empobrecer cada vez mais, aos que vão emigrar.

Não é o adro que os vai redimir de tudo isto, não são as meias palavras, nem as meias verdades, e a tese do inimigo externo há muito que deixou de ser eficaz.