Chefe, o pior é a indiferença. Sabe, alguém disse que não existem pequenos actos de bondade, porque todos eles despoletariam uma cadeia lógica interminável. Mas ser novo em Portugal não é assim. Todos os actos de bondade parecem esbater-se numa massa amorfa de comportamentos improdutivos e pulsões auto-destrutivas. Como a emigração. Se vou, faço parte do problema. Se fico, também. Está a ver? Há uma ideia, inconsciente mas efectiva, de que nada vale a pena. De que o produto do nosso trabalho está inelutavelmente consignado a um cobrador imaterial e ultrasoberano. Sabe, Chefe, eu compreendo as coisas. Sei que a gente abusou, que uma dívida é uma dívida, que se fosse credor também não gostava, e que não pagar implica que a gente não se possa endividar mais. Mas não deixa de ser como se devesse a um espírito. Não podia votar quando se elegeram os tipos, não me endividava quando o crédito era fácil. Não participei nisto. É ridículo, mas gostava de ser culpado. Gostava que houvesse justiça poética nisto, e cada dia de sacrifício representasse uma expiação de pecados terríveis ou uma forma esforçada (e por isso pacífica) de redenção. Mas não. Todos os dias são alheios, e essa é a parte pior de serem maus. E é o cinismo também. Há dias, o Parlamento concluíu que a água da torneira lhes saía mais cara do que a de garrafa. Ir buscar água à torneira, esse acto espontâneo e natural, tem de concorrer com uma garrafa de plástico. É como ter um analista financeiro ao ombro. Isso é cinismo, e preocupa-me. Ando eu aqui no táxi a falar consigo… e isso tem de competir com estar a trabalhar ou a estudar. Agora mesmo, durante a noite. Como se este tempo fosse alheio também, e eu tivessse de o roubar. Sabe, antes dizíamos predestinado presumindo que o destino era bom. Mas não, a malta nova não se sente predestinada por ser genial ou ter apelo transcendente. Somos predestinados literais - pessoas sem controlo sobre o seu destino. Ser jovem pressupõe uma expectativa de futuro. Sem essa expectativa, a juventude é uma questão exclusivamente biológica. E, se ser jovem é uma questão exclusivamente biológica, tanto me faz ser jovem em Portugal ou em qualquer outro sítio. Indiferença. ..o pior é a indiferença, está a ver? Orgulho? Olhe Chefe… Nós…nós temos uma coisa. Acho que não compreendemos a ideia de risco. Queremos tudo ao mesmo tempo, como se cada escolha não fosse assassina das outras. Como se pudéssemos trabalhar até tarde e ser bons pais, ser altamente produtivos sem ser um pouco insensíveis, emigrar e ter as mesmas amizades, dormir ao sol e estar disponível via Blackberry. Como se fôssemos imortais. Essa indistinção entre o tecido do sonho e realidade conduz-nos a uma desilusão agonizante e permanente. Nós sonhamos sem os olhos, e vivemos nas urgências de constantes choques frontais a alta velocidade com a fronteira do possível. Mas sabe…nem sempre chocamos. Por vezes, nessa confusão delirante entre sonho e realidade, indiferença e valor, água da torneira e água da garrafa, alguns de nós, na sua maluquice, dão passos convictos na direcção do impossível - e ele recua. E isso, e isso apenas, vence toda e qualquer indiferença - e é aquilo de que mais me orgulho no Mundo. Mas não diga a ninguém. Eu devia estar a estudar.

Pedro Fontes