- A senhora come Cultura? Perguntou o homem num dia de campanha eleitoral. Ela, que não, claro que não. Ele eufórico. Palmas, música e "essas bandeiras no ar". Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O homem ainda cá está, mas mudou de discurso. Agora é preciso defender o património. - Acham que as estradas e os edifícios se fazem com palha de bananeira? Nova pergunta feita no meio de um grupo que acenava com uma mão e enchia a boca de croquetes com a outra. Claro que não, que não se fazem obras sem betão e muito menos com palha de bananeira, coisa de gente pobre. Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está, mas mudou o discurso. Agora é preciso organizar o regresso à terra. - A Madeira vai ser a Singapura do Atlântico! O projecto era ambicioso e tão grande como um balão gigante, cheio de ar. Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está, mas mudou de discurso. Agora diz que as dificuldades de hoje são uma brincadeira comparado com o que havia há 30 anos. E o balão rebentou! - A Madeira vive em clima de pleno emprego, lembram-se desta?! Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está, mas mudou de discurso. Agora é preciso lutar contra o desemprego que afecta mais de 20 mil madeirenses. - Na Madeira quase não há pobres, era capaz de jurar quando contrariado por técnicos que conheciam a realidade. Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está, mas mudou de discurso. Agora talvez seja preciso ter cantinas para dar de comer aos pobres, cuja fila aumenta a cada dia. - O Jornal da Madeira é para manter, disse e repetiu durante mais de três décadas. Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está, mas... mantém o discurso. O Jornal da Madeira é para manter, custe o que custar, custe a quem custar. E custa. Custa 11 mil euros por dia. Estes são apenas alguns dos muitos exemplos do carrossel em que nos meteram ou nos metemos voluntariamente. Casos concretos que ajudam a perceber as contradições de anos e anos de planos de governo desenhados em cima do joelho nos adros de uma Igreja que, salvo raras excepções, parece ainda adormecida ou distraída. E quem fala destes casos fala de tantas outras contradições e excepções. Dos ordenados somados às reformas, das viagens sem dar cavaco a ninguém, dos gastos inexplicáveis, do 'jackpot' de uma Assembleia rebaixada, do açambarcamento de tudo o que mexe numa sociedade que mal se mexe, do desprezo pelos empresários (alguns empresários) que aguentaram a festa e ficaram a arder com facturas que nunca mais descem do tecto. Passou o tempo, a dívida escondida aumentou e foi descoberta. O mesmo homem ainda cá está. A senhora não come Cultura, a palha de bananeira não serve para fazer estradas, o pleno emprego foi-se, da Singapura resta apenas o Atlântico, os pobres são cada vez mais. Melhoraram as condições de vida, os acessos, os edifícios. E o Governo aumentou a tiragem do Jornal da Madeira. No fim de contas, vemos agora, aumentaram a tiragem de uma forma geral. Quem ainda pensa que manda prepara-se para tirar aos madeirenses mais do que aquilo que jura que lhes deu. Confirma-se: quem dá também tira.